Ela só queria uma geladeira branca

darília_lilbé

Darília Lilbé nasceu no interior de Minas Gerais e aos 14 anos se mudou para São Paulo. Viu sua vida ganhar outro rumo quando foi apresentada ao teatro.

Por Marina Salles

Edição Renata Leal

Nua, de braços abertos, em pé no centro do palco, uma atriz negra de 1,64m e 117 kg está pronta para ser pichada pela plateia. A performance se mantém até que a música para de tocar e todos percebem que aquela era a última cena do espetáculo A paixão da matéria. “Gosto desse final porque a plateia tem que tomar uma decisão. As pessoas podiam se levantar e me pichar, sair, tirar a roupa, pintar o próprio corpo. Mesmo quem continuasse sentado olhando expressava um ponto de vista”, diz a atriz Darília Lilbé, 26 anos.

Para ela, falta nas pessoas o desejo de fazer algo pela mudança. “Porque às vezes a gente fica tão alheio às coisas na vida…” Mudanças são uma constante na trajetória de Darília, que dá um pouco de si a cada personagem que interpreta e, assim, escreve sua própria história.

Primeiro ato: A geladeira branca

Sentada sobre dois colchões cobertos por um lençol, Darília narra sua história. Ela mora no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo e nos oito metros quadrados do quarto guarda tudo que pode chamar de seu. Embaixo da escrivaninha estão caixas de plástico com objetos domésticos; nas prateleiras, alguns livros, um vaso com rosas naturais e seu notebook. Uma das paredes, pintada de azul turquesa, dá vida à impessoalidade do espaço. Um móbile preso ao teto e flores de ferro penduradas na parede completam a decoração. Darília é atriz e estudante da Escola de Artes Dramáticas da USP (EAD).

Nascida em Bom Sucesso, Minas Gerais, aos 14 anos Darília se mudou para São Paulo em busca de um sonho. Queria juntar dinheiro para casar. Casar, colocar piso em sua casa nova e comprar uma geladeira branca.

A mãe a deixou quando ela tinha apenas seis meses. Marília dos Santos foi viver outro amor. “Minhas filhas foram criadas pela minha mãe, mas eu ligava sempre que podia. Passávamos as férias juntas em São Paulo e nos falávamos por telefone”, diz Marília. Dos 9 aos 14 anos, Darília morou com o pai, em Minas. “Meu pai nunca foi violento comigo, mas batia na companheira que estava grávida. Era viciado em bebida”. O clima pesado fez a menina buscar alternativas.

1.A avó de Darília, sua irmã e ela, prontas para ir à procissão. 2.Dona Marília e as filhas brincando de ser cantoras durante as férias, em Bom Sucesso (MG). 3.Darília e as colegas de escola. 4.Darília vestida de Tia Nastácia em um festival da cidade. (Fotos: Arquivo Pessoal).

Casar se tornou uma solução para os problemas. Em um pacto com o noivo de 14 anos, Darília prometeu que voltaria para Minas assim que tivesse o dinheiro necessário para o piso e a geladeira branca. O plano era construir dois cômodos no quintal da sogra. Enquanto o namorado juntava dinheiro trabalhando na roça, ela viajou para São Paulo e foi morar com a mãe. Nunca mais voltou. Pelo menos, não para se casar. O noivado terminou em uma noite de sábado, por telefone. Sua última visita a Bom Sucesso foi para enterrar o pai.

Segundo ato: Escolas de teatro

Dos 14 aos 23 anos, Darília viveu na casa da mãe. E, logo que chegou, queria trabalhar como empregada doméstica. Dona Marília foi contra. “Minha mãe perguntou se eu sabia ligar e desligar um computador e eu disse que só sabia se fosse tirando da tomada. Por um tempo, ela me fez desistir da ideia.”

A relação entre as duas era distante. Darília se queixa de não ter recebido atenção nem na infância nem na adolescência. Para Marília, o mais importante era que a menina se adaptasse à nova realidade. Em São Paulo, as pessoas pareciam falar outra língua. “Na escola, o choque cultural foi tão grande que eu mal conseguia conversar com os colegas. Eles usavam palavras diferentes e nem falando da mesma novela conseguíamos nos entender.” Para se familiarizar com um mundo que parecia totalmente alheio a ela, Darília fez um curso profissionalizante organizado pela ONG Liga das Senhoras Católicas. Descobriu o e-mail e a internet.

Mais tarde, teve a oportunidade de fazer uma atividade artística. Uma vez canceladas as aulas de dança na ONG, os alunos migraram para o teatro. A oficina era ministrada no Núcleo Sócio Educativo Educandário Dom Duarte. Foi nesse ambiente que Darília aproveitou para fazer amigos e perder a timidez. Antes disso, ela diz nunca ter pensado em fazer teatro. Sem querer, virou Lilbé, nome de seu primeiro personagem em cena.

Em Minas, Darília participava de encenações nas festas da igreja e cantava, mas não tinha consciência do que isso podia significar. “Na ONG, me sentia protegida. Nada do que me pediam parecia absurdo e eu não tinha bloqueios. No máximo, ia ouvir que era muito ruim.” Ela se lembra do dia em que fez um exercício nada convencional. “O professor colocou uma música clássica e pediu para imitarmos uma libélula tomando sol. Por mais que eu não soubesse o que fazer, decidi me jogar no chão e achar alguma coisa.”

Edilson Castanheira, seu “iniciador no teatro” – como ela gosta de dizer – afirma que a menina tinha talento, mas não sabia expressar todo o seu potencial. “O tempo ensinou isso a ela, e ainda que a Darília tivesse uma personalidade forte, também aceitava ser convencida”, diz. No início da carreira, ele tentou convencê-la a cortar o cabelo para fazer um papel masculino. Darília de pronto não aceitou. “Não sei se era vaidade feminina, mas ela não queria de jeito nenhum. Então contei a ela a história de uma atriz que dizia que o cabelo dela não era dela, mas dos personagens. No dia seguinte a Darília apareceu com o cabelo quase raspado”.

Em determinado momento, o grupo de teatro se desfez e os alunos restantes montaram o Eu+13. “Ensaiávamos no Caldeirão, que era o espaço do Edilson.” Para se sustentar, Darília trabalhava em um telemarketing. “Até que chegou um dia em que senti que não dava mais, estava totalmente insatisfeita. Foi então que tomei a decisão mais imatura da minha vida: saí da empresa sem ter nada em vista.” O seguro-desemprego acabou, e ela descobriu a EAD. Gian Mellone, um amigo do Caldeirão, lhe apresentou a oportunidade.

1 e 4.Produções organizadas pelo Grupo Caldeirão. 2.Darília interpretando seu primeiro papel masculino junto com colegas do Eu+13. 3.Performance na Praça da República durante o Festival Satirianos. (Fotos 1, 2, 4: Edilson Castanheira/ 3: Autor desconhecido).

“Ele falava com tanta paixão daquela escola que resolvi tentar também. Nunca tinha feito um teste na minha vida e mesmo sem acreditar que poderia passar, me inscrevi.” Eram R$ 100 e não tinha isenção. A cada nova etapa, ela pensava no dinheiro desperdiçado.

Quando saiu o resultado, foi ele quem gritou primeiro. Darília dos Santos Ferreira, seu nome de batismo, estava na lista dos aprovados. Dos cerca de 500 candidatos que participaram do processo seletivo para a escola técnica, 20 passaram. Darília estava entre eles. Os dois comemoraram na EAD. Gian a levou para casa e ela não pregou o olho naquela noite.

Terceiro ato: Bolinhos de chuva

Com 23 anos, a mineira de uma cidade com pouco mais de 17 mil habitantes tinha entrado para uma das maiores escolas de teatro do país e conseguido uma vaga no Conjunto Residencial da USP. Com um teto para morar, tíquetes do bandejão para se alimentar e uma bolsa-livro, Darília começou o curso.

Morava com mais cinco colegas. No segundo semestre na USP, uma surpresa. “Eu dividia o apartamento com amigos da escola, e eles descobriram que eu não me aguentava quando me faziam cócegas. Um dia ri tanto que cheguei a cair no chão. Depois disso, apareceu um calombinho no meu pescoço.” Ela achou que tinha se machucado na queda. No posto de saúde, disseram que era caxumba. “Aquele caroço que parecia um bolinho de chuva não parou de crescer.”

Em um domingo de agosto de 2011, seu vizinho de quarto insistiu em levá-la ao médico. Juntos, Darília e Rafael, apelidado de Chico Guerra, caminharam três quilômetros do Residencial da USP até o Hospital Universitário (HU), também dentro da universidade. O médico pediu uma tomografia. Quatro horas de jejum, o exame, a notícia. Darília tinha um linfoma.

“Foi como se o horror tivesse tomado conta do meu coração.”

Com a respiração comprometida, ela foi alertada de que não podia deixar o hospital. O câncer tinha se alastrado pela garganta. Ciente da situação, Darília fugiu. Do hospital até sua casa, ela e o amigo não trocaram uma palavra.

Dias depois, a assistente social do hospital ligou. Darília tinha uma biópsia marcada. Começaram os gastos com medicação. O dinheiro para a primeira leva de comprimidos para a quimioterapia veio do próprio hospital. As caixas seguintes foram pagas pela Superintendência de Assistência Social da USP. Com a ajuda dos assistentes sociais, Darília foi encaminhada para o Instituto do Câncer.

“E quando eu liguei para a minha mãe para contar que estava com câncer, ela disse que estava grávida…”. A notícia ficou para depois. Marília diz que era gestante de alto risco. “Não pude acompanhar a Darília e nem podia ficar sabendo de certas coisas. Minha pressão chegou a 26 por 16 e minha bebê nasceu de seis meses e meio.”

Todo o apoio veio dos seus amigos, dos professores, de mães de alunos, de pessoas até então desconhecidas, e da diretora da EAD. “Eram eles que me visitavam, compravam coisas que eu gostava de comer, me acompanhavam nas consultas.”

E apesar de todas as reações ao tratamento, Darília continuava a frequentar a escola. De agosto a dezembro, ela não deu trégua. No terceiro semestre de curso, seu corpo deu uma resposta. “Fui a uma aula de dança só para assistir e tentar absorver alguma coisa. Deitei no colo de uma amiga e de repente não estava mais conseguindo respirar.” Rafael lembra que ajudou a carregá-la até o carro. “Ela foi se desmanchando no banco e dava para ler nos olhos dela: acabou.”

Darília tinha parado de aplicar um dos medicamentos. Rafael lembra: “Como estava com a barriga roxa por causa das injeções diárias, ela decidiu fazer uma pausa sem consultar ninguém.” A imprudência trouxe complicações. Ela foi internada às pressas na UTI. Seu estado de saúde exigia atenção. Naquelas condições, Darília não podia continuar a viver no Conjunto Residencial da USP.

Quarto ato: Colo de mãe

Sandra Regina Sproesser, professora de teatro grego e diretora da EAD na época em que Darília descobriu o câncer, teve papel importante na recuperação da aluna. Na saída do hospital, foi ela quem abriu sua casa para receber a estudante. Passaram oito meses juntas.

“Meus filhos tinham acabado de sair de casa e eu estava com os quartos vagos. E mesmo considerando meu cargo na escola, agi por impulso, porque sou humana antes de mais nada”, afirma a ex-diretora. O pai de Sandra morreu em decorrência de um linfoma. “Mas ele já tinha idade. Ver essa doença se manifestando em uma jovem me fez refletir sobre a morte de outra maneira.”

Darília diz que na casa de Sandra se sentiu acolhida como uma filha. “E apesar de termos vindo de mundos tão diferentes, nunca me senti invadida”, revela Sandra. Do lugar de professora de Filosofia – que conhece a técnica, mas não é especialista em interpretação – ela atribui o talento da aluna à experiência de quem sabe o que é a dor. “Muitas emoções podem ser revisitadas na literatura, mas quem descobre na literatura o que já tinha sentido percebe o mundo de maneira diferente. A intuição é uma grande potência.”

Mesmo assim, ela sabe que Darília não se contenta em ter só uma espécie de dom. “Na EAD, ela sempre mergulhou e esperneou até perder o fôlego, como se não pudesse voltar à superfície para ‘fazer de conta’.”

Recuperada, Darília foi embora. Deixou um quarto vazio. Colo de mãe. O conforto de um lar. A porta do quarto em que Darília passou oito meses permanece fechada. Sandra diz que prefere assim. Evita lembrar. Esquece a saudade. A menina quis ser livre de novo. Seu corpo pulsa. Darília vive.

Quinto ato: Além das fronteiras

Preparada para seguir em frente, Darília foi selecionada para participar de um intercâmbio na Universidade Autônoma do México. O desafio: trabalhar com mais quatro atores brasileiros na montagem de uma peça escrita e dirigida por um dos maiores nomes do teatro mexicano, Alberto Villarreal. Com R$ 200 no bolso, as despesas pagas pela USP e o passaporte financiado por Sandra, ela partiu para sua primeira viagem internacional.

Segundo o dramaturgo e diretor mexicano, que produziu mais de 40 espetáculos, a escolha pelos atores teve uma boa dose de intuição. “Buscava mais características particulares do que aspectos técnicos. E o que me chamou a atenção na Darília foi sua voz extraordinária, sua bela presença de palco e sua grande capacidade de ir da tragédia à comédia.”

Ensaio de A paixão da matéria, peça produzida no México. (Foto: Alberto Villarreal).

O espetáculo produzido no México era uma crítica à civilização atual e suas futilidades. É dele a última cena narrada no início deste texto, com Darília sendo pichada pela plateia.

De volta ao Brasil, Darília decidiu estudar o papel do negro em cena. “Tenho só 26 anos, mas parece que já vivi muito mais. Não tenho tempo de errar. Então parei o curso na EAD porque não podia ignorar uma questão latente em mim.” Com esse sentimento, ela entrou para o coletivo Os Crespos.

O grupo de teatro é militante da causa negra e sobe ao palco para defender seu ponto de vista. Depois de um ano no coletivo, Darília criou o seu próprio. Quer viver em um mundo em que as diferenças não importem. Em sua última apresentação com Os Crespos, ela reviveu histórias de personagens reais. A peça foi inspirada no depoimento de 50 mulheres negras. Darília não era uma delas, mas poderia ser.

“Sabe, às vezes eu penso nisso… tenho vontade de fazer uma peça, com o momento em que fiquei doente. Porque ali eu me transformei por completo. Acho que tem uma hora que a vida fala: ‘ou vai ou racha, querida’. E pra mim foi esse momento.De todo jeito, não acho que a minha história seja mais especial do que as outras. Porque se você for olhar a vida das pessoas a fundo, todo mundo tem uma história interessante. (Mas eu não quero te desencorajar…)”.

Agora, a jovem que sorri formando covinhas perfeitamente simétricas nas bochechas está aprendendo a tocar violino. Começou a fazer aulas de canto. Tem planos de entrar para um cursinho. Prestar vestibular para a licenciatura em teatro da USP. Quer ser reconhecida por seu trabalho.

Este semestre, retomou as atividades na EAD. A menina de Bom Sucesso ainda tem muitas geladeiras brancas por conquistar.