Machismo é prejudicial à igualdade entre os sexos

Discutir o machismo é algo que incomoda tanto mulheres quanto homens. É difícil entender como esse valor, considerado negativo, se inseriu em nosso cotidiano de tal forma que chega a ser visto com naturalidade.

Trabalho doméstico permanece relacionado à figura feminina (Foto: Marina Salles)

“Lavar louça é coisa de mulher”, pensa o filho de Maria Elenice dos Santos. Segundo ela, o menino ajuda a recolher a roupa, carregar sacolas e lavar o banheiro, mas prefere não ajudar nas tarefas que, em sua opinião, são mais femininas. Com tantas mudanças no quadro de atuação da mulher na sociedade, ainda permanece a questão do porquê existem tarefas que são consideradas exclusivas delas. Na opinião de Lourenço de Jesus, “às vezes o machismo é errado e pode ser resolvido se as pessoas conversarem mais” em casa, por exemplo. Para Maria Elenice, “o machismo já é normal”, mas ela acredita que seja possível reverter essa situação. Segundo ela, os pais têm o dever de dar o exemplo aos seus filhos para ajudar a construir uma visão mais igualitária entre os sexos.

No caso da diferença de salários entre o gênero masculino e feminino, não há consenso nem entre as mulheres. Resultado de um conflito de gerações, as opiniões variam conforme a percepção das mudanças na posição social da mulher ao longo do tempo.

Fonte: IBGE 2009 (Imagem: Luiza Guerra e Paula Peres)

Para a moradora Estefânia Novaes, 19 anos, “não deveria existir essa diferença”, opinião da qual Maria Elenice, 34 anos, discorda. Segundo ela, “os homens têm mais responsabilidade de sustentar a família”. Ela acrescenta ainda que “muitas mulheres continuam suportando agressões por não terem como se sustentar sozinhas”. Nesse sentido, defende que elas tenham alguma indepen-dência financeira e que, se preciso, tomem coragem para abandonar o lar e criar seus filhos longe da violência doméstica.

A luta por direitos iguais e pelo aumento da participação feminina no mercado de trabalho são ações importantes no combate ao machismo e devem ser cultivadas para ajudar a diminuir as diferenças entre homens e mulheres.

Cinco anos de Maria da Penha: pouco mudou

A Lei Maria da Penha, que criminaliza a violência contra a mulher, completou cinco anos no dia 26 de setembro. Tendo aumentado o rigor das punições à violência doméstica, física ou psicológica. Agora, os agressores podem ser presos em flagrante.

Segundo Eduardo Ariente, professor da USP e formado em Direito, “em casos em que a vítima sofre um alto risco à sua integridade física, justifica-se a prisão preventiva do agressor”.

No entanto, a maioria das mulheres que já sofreram agressão não recorre à denúncia policial. Em depoimento ao NJSR, uma delas contou: “sabia da delegacia, mas achei que o melhor castigo era o desprezo”. Para ela, ao ver-se sozinho, o ex-marido perceberia o que tinha perdido. Outra moradora disse que a falta deatitude diante das agressões faz com que isso se torne costume “Quem bateu a primeira vez, vai bater mais vezes e o agressor não merece uma segunda chance”.

O Centro de Saúde e Escola (CSE) disponibiliza serviços voltados para conflitos familiares difíceis, realizando um trabalho conjunto com outros profissionais das áreas jurídica, psicossocial e policial. A enfermeira Maria
Fernanda Terra defende: “a saúde não dá conta sozinha, até porquemuitas mulheres não conseguem
dizer que sofreram violência, sendo necessário fazê-las reconhecera condição em que vivem”.

No CSE também são feitos atendimentos ao agressor nos casos em que ele se propõe a esse diálogo. São discutidos assuntos como os direitos humanos, questões de gênero e temas ligados à saúde, os quais envolvem vícios como o álcool e as drogas.

Publicado em Outubro de 2011

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O ensino e a responsabilidade dos pais e professores

Rosana Osso de Miranda é diretora da E.E. Clorinda Danti, que recebe alunos do ensino fundamental de 1ª a 4ª série. Formada em Pedagogia pela PUC São Paulo, ela discute nessa edição a participação dos pais na educação de seus filhos.

Diretora propõe mais diálogo (Foto: Mateus Marcel Netzel)

Os pais costumam ir às reuniões?

Nós estamos fazendo um trabalho de formiguinha com eles, buscando conscientizá-los da importância que a família tem no aprendizado.  Claro que nós gostaríamos de ter 100% dos pais nas reuniões, mas nós temos conseguido aumentar essa participação. Em cada classe há aproximadamente 35 alunos, e geralmente vêm às reuniões os pais de 20 deles.

Como se dá a comunicação dos pais com a escola?

Adotamos uma agenda, um caderno de capa dura, para nos comunicarmos. Nós somos maleáveis com os horários de atendimento, até porque muitos pais trabalham no mercado informal. Sempre pergunto: que dia você pode vir? Que horas você pode vir? Minha preocupação é a de que eles compareçam. Se for necessário ligamos até para o celular.

Quais as iniciativas da escola na tentativa de aproximar os pais?

Tivemos um mutirão de limpeza e convidamos os pais e as professoras para participar. Não era um dia letivo, todos vieram em prol do Clorinda Danti. Nós pedimos para os pais contribuírem com a limpeza da quadra e com a pintura e depois oferecemos um almoço. Eu acho importante fazer parte da escola.

Uma vez nós conseguimos um espaço para discutir melhorias e dividimos os pais em salas: infra-estrutura, relacionamentos, pedagógica…  E por meio de papéis vermelhos, amarelos e verdes, os pais tiveram a oportunidade de opinar sobre os serviços oferecidos. E a partir disso nós pudemos resolver problemas pontuais. Deixamos, por exemplo, de nos comunicar por bilhetes e passamos a fazer uso de agendas, para trocar informações com os pais.

É perceptível quando os pais de uma criança não se interessam por sua vida escolar?

Nós percebemos que quando a família está com a gente, o aluno faz a lição de casa, participa das aulas, traz o que o professor perde, eles são mais presentes. Os que são mais ausentes às vezes não trazem sequer caderno ou lápis, mas trazem um pacote de salgadinho para a escola. Temos que discutir o que é prioridade. Nas reuniões nós sempre lemos textos para os pais, para conscientizar da importância da qualidade no relacionamento com os filhos. Da necessidade de impor limites, mesmo para a vida.

A falta de conscientização e de conhecimentos gerais seriam os motivos da falta de participação?

Acredito que seja uma questão social, a educação no Brasil não é valorizada. Muita gente que não é da área quer interferir em algo que desconhece.  Às vezes as mães dizem: Eu aprendi o “beabá” e essa professora fica enrolando. Isso porque não sabem quais são os procedimentos e as metodologias da escola. Nesses casos, nós nos preocupamos em alertar os pais sobre os nossos objetivos.

Há vagas suficientes na escola?

Eu não posso negar o acesso à escola. Aqui tem espaço para quem quer aprender. Eu não excluo ninguém. Eu dava aulas em Ilha Bela e quando voltei para São Paulo escolhi essa escola porque já tinha morado no bairro. Fiquei assustada com a falta de limites que os alunos tinham, hoje, durante qualquer atividade os alunos se sentam e ficam quietos, ouvem. Ainda não conseguimos fazer com que todos eles tenham interesse no aprendizado, porque muitos vêm defasados e também com outros interesses.

Os que vêm de tarde, depois de saírem do Circo Escola, chegam com pique total. Mas cabe também às professoras se modernizarem, darem atividades diferenciadas, aproveitarem bem o espaço. Desenvolvemos xadrez, coral, fotografia e tênis de mesa. Por estarmos com bons índices perante o MEC, recebemos verba e aproveitamos. Investimos no aprendizado por meio de jogos porque, assim, os alunos aprendem a perder, a esperar e a respeitar regras.

Quando as crianças geram muitas dificuldades qual o procedimento da escola?

Não podemos excluir as crianças nesse momento, temos que trabalhar com as diferenças e com a agressividade. Tudo isso nós mostramos que pode ser diferente, quando se tem a opção de escolher. Eu não julgo, acredito que com exemplos podemos construir o respeito, para sermos respeitados.  O importante é que eles se tornem melhores seres humanos do que entraram aqui. Tudo tem um critério. Nós temos que parar de discriminar. Temos que pensar no por que do não e no por que do sim.

O que representaria o sucesso do seu trabalho?

Daqui a três anos eu me aposento e espero que ao reencontrar as crianças que passaram pela escola eu me orgulhe de falar: “Esse foi meu aluno”.  O meu desejo é que uma parcela deles plante uma sementinha. Uma vez um pai me contou que o filho deu a maior bronca nele ao perceber que ele tinha jogado lixo no chão, isso demonstra que as crianças já estão conseguindo transmitir os seus valores para os adultos. Na escola nós trabalhamos ideias como: Eu não jogo o papel no lixo porque tem alguém olhando? Ou porque eu não devo jogar?