Arte mexicana, o valor de grandes histórias

Artistas originários da região em que nasceu o muralista José Clemente Orozco discutem questão do reconhecimento ao trabalho que realizam hoje nas mesmas redondezas

Estátua de cera da figura de José Clemente Orozco. (Foto: Marina Salles)

Conhecido por seu potencial artístico, que se manifesta desde o período pré-hispânico, o México foi berço de grandes personalidades da pintura e escultura mundial, entre eles, os precursores do movimento Muralista. Mas de que forma o desenvolvimento do trabalho de grandes nomes desse período, como José Clemente Orozco, influencia na produção das novas gerações nascidas na mesma região em que ele deu início à sua trajetória?

Fruto de um contexto histórico específico e de razões sociais que o afastaram de sua cidade natal, Orozco e seus contemporâneos ajudam a contar, hoje, a história de outros artistas que, assim como eles, desejam ter o seu trabalho reconhecido.

O Muralismo

O movimento Muralista tem suas origens na Revolução Mexicana de 1910, que pôs fim ao regime de Porfirio Díaz. Caracterizada por determinado avanço econômico, a era porfirista durou pouco mais de trinta anos e marcou um período de aguda desigualdade social. Assim, seja no campo ou na cidade, o que se via era um cenário de exploração, apesar da chegada do progresso. Segundo o ditador, o governo deveria guiar-se por “pouca política e muita administração”. Dessa forma, com o passar dos anos, o regime foi se desgastando até que rivalidades internas, fraudes eleitorais e o descontentamento da população levaram o país a uma transformação política que se fortificou durante todo o século XX.

Nesse contexto, o Muralismo teve destaque como proposta de arte de caráter indianista dirigida à população, com o intuito de retratar a realidade mexicana, suas lutas sociais e aspectos chave de sua história, tais como a conquista por parte dos espanhóis. Em oposição à pintura tradicional, amplamente difundida entre os intelectuais, essa nova forma de expressão teve por objetivo alcançar a sociedade em geral, sendo inclusive essa a motivação de escolher espaços públicos, os muros, para difundir suas mensagens.

Réplica do mural "Homem de Fogo", localizada no quiosque da praça principal de Ciudad Guzmán. (Foto: Marina Salles)

“Nadie es perfecto en su tierra”

José Clemente Orozco nasceu em Zapotlán El Grande, município atualmente denominado Ciudad Guzmán, que se localiza ao sul do estado de Jalisco, no ocidente do país. E embora possa parecer curioso, o único indício da obra desse grande pintor em sua cidade natal é a reprodução de um de seus murais mais conhecidos: Hombre de Fuego, que foi originalmente pintado em um orfanato (Hospicio Cabañas), na cidade de Guadalajara.

Apesar de ter ido viver na capital do estado com sua família quando tinha apenas 3 anos de idade, Orozco não deixou de pintar em Ciudad Guzmán por falta de iniciativa ou motivação, senão porque em seu próprio povoado isso não lhe foi permitido. Segundo um artista plástico da cidade, “Orozco foi buscar reconhecimento em outros lugares, porque não lhe deixaram pintar em sua própria terra em razão de suas ideias. Naquela época, Ciudad Guzmán era um povoado ainda mais fechado no que diz respeito às crenças religiosas e ele era muito liberal, defendia o comunismo em sua essência. Foi por isso que fecharam as portas para o seu trabalho, mas também graças a isso foi que ele triunfou, porque deixou de ser um pintor local”.

Orozco viveu também na Cidade do México, onde expôs pela primeira vez o seu trabalho individual em 1916. Oito anos antes, tinha perdido sua mão esquerda em um acidente ocasionado pelo manuseio de pólvora. Morou ainda nos Estados Unidos, tendo se juntado a seus contemporâneos em 1922, quando regressou ao México pleiteando patrocínio do governo para resgatar a pintura nos murais. Ele, David Alfaro Siqueiros e Diego Rivera ajudaram a fundar o Sindicato dos Pintores e Escultores mexicanos nessa época. Da mesma forma que Orozco, ambos tiveram experiências nacionais e internacionais, deixando um rico patrimônio cultural para as gerações que os precederam.

Ao centro, um dos 57 murais que José Clemente Orozco realizou nesse espaço entre setembro de 1937 e março de 1939. (Foto: Lena Hermeler)

Herdeiros da região

Filho da mesma terra de José Clemente Orozco, Javier Silva comenta que se descobriu artista já na infância, “meu pai trabalhava com couro e eu gostava de observá-lo exercendo o seu ofício, gravando as peças com fogo, sendo que, além dele, meu vizinho, que desenvolvia seus próprios pigmentos a fim de decorar carros alegóricos para as festas de outubro, foi meu outro professor. A partir daí comecei a despertar a minha intuição”. Referindo-se aos seus primeiros anos de escola, ele lembra ainda de como gostava de desenhar e lamenta não ter continuado seus estudos. Com onze anos, o escultor zapotlense deixou a primária em função de um trauma ocasionado pela tentativa de assédio por parte de um professor. Como sua família não tinha condições financeiras favoráveis, na sequência, ele passou a se dedicar ao negócio comprado pelos pais, um açougue, onde aos dezesseis anos perdeu a mão direita enquanto trabalhava.

Javier Silva em sua casa em Ciudad Guzmán. (Foto: Marina Salles)

Nesse momento, Javier diz que perdeu seu encanto pela pintura, voltou a estudar e terminou o que seriam o ensino fundamental e médio. Com relação à arte, ele se considera autodidata, “eu estudei muito pouco sobre o que diz respeito ao desenho e à pintura, mas sinto que alcancei entender o elementar”. Outra vez inserido nesse universo, ele dedicou-se a produzir caricaturas, e foi com uma delas que chegou a ser convidado para expor seu trabalho no exterior. “Em 1997, fiz a caricatura de um amigo e lhe dei de presente. Ele levou o trabalho para os Estados Unidos e lá, o presidente municipal de Atlanta chegou a vê-la, o que lhe motivou a me fazer o convite para representar o México em uma exposição de pintura que ia acontecer no dia 5 de maio [quando ambos os países comemoram a vitória do exército mexicano sobre os franceses na batalha de Puebla]”. Dessa data em diante, Javier Silva realizou outros trabalhos no país e voltou para sua cidade de origem decidido a dedicar-se com mais afinco à carreira artística.

Já no México, ele exerceu alguns trabalhos como pintor muralista, mas logo se descobriu escultor. Sem deixar a arte que caracterizou seu conterrâneo, Javier passou a destinar seu tempo à técnica da escultura nos murais, trabalhando com o alto-relevo. Uma de suas obras localizada em Ciudad Guzmán é o mural que está na Universidade Pedagógica Nacional (UPN) e que foi feito em comemoração dos trinta anos dessa instituição.

Da esquerda para a direita, Javier Silva se propõe a construir uma mensagem que liga Universo, Pedagogia e Nação, as iniciais da universidade que celebrava seu trigésimo aniversário naquele ano. (Foto: Marina Salles)

À esquerda, índio sustenta representação do globo terrestre, cuja espiral, segundo o autor, simboliza o infinito que pode ser a aprendizagem do ser humano. Logo abaixo, a figura do franciscano remete ao fundamento da língua escrita, que chega ao povo como uma “chuva de sabedoria”. Ao centro, Javier conta que quis representar o homem universal, o qual, em sua concepção, seria o professor. Mais abaixo, os 3 caracóis simulariam, cada um, dez anos da fundação da universidade. Por fim, à direita, a Mãe Pátria carregando a bandeira nacional vê chegar uma mão que sustenta os princípios básicos da Educação (Artigo 3º da Constituição mexicana). Essa mão, na posição em que está, constituiria um símbolo associado à Psicologia.

Apesar de compartilhar suas intenções por detrás da realização da obra, Javier reforça que a beleza da arte está, justamente, no fato de que cada pessoa pode extrair de um trabalho como esse sua própria interpretação. Sobre seus trabalhos em Ciudad Guzmán, o artista pontua que sente falta do apoio das autoridades locais para com a realização de novos projetos, “aqui tem muita gente que pode produzir, mas ainda contamos com poucas obras. Eu busco espaços, entretanto, ao ar livre mesmo não tenho mais do que duas esculturas e tudo foi iniciativa minha, ninguém veio tocar na minha porta para dizer ‘faça isso’”. Na opinião dele, talvez esse esforço um dia seja reconhecido, mas o importante nesse momento é continuar insistindo, “vi muitos autores que na minha idade se desgastaram, em pensar o que seria de sua posteridade e, para mim, isso não é importante. Um dia vou morrer, é inevitável. Tudo que quero agora é continuar produzindo”.

Imagem do escultor Pedro Sánchez, exposta na Catedral San José em Ciudad Guzmán

Em outro povoado do sul do estado de Jalisco, chamado Zapotiltic, o escultor e professor Pedro Sánchez se dedica, principalmente, à composição de peças talhadas em madeira e à escultura religiosa. Ele conta que começou seu trabalho na Casa de Cultura da cidade como diretor e que, hoje, dá aulas de arte. “Estudei administração de empresas e não demorei muito para perceber que esse ramo não era para mim; quando pequeno fazia meus próprios Cristos de madeira”. Segundo ele, seus conhecimentos foram adquiridos sobretudo em Guadalajara, onde teve a oportunidade de trabalhar com “grandes professores” consagrados no ofício, entre eles, Miguel Pinto e Augustín Parra. “Atualmente, meu filho estuda artes plásticas e acredito que ele também terá condições de me ensinar muito”.

A respeito do reconhecimento de seu trabalho, Pedro lamenta que às vezes o escultor de imagens sacras passe despercebido. “Como veem a obra e a associam a um ícone religioso, dificilmente, param para pensar em quem está por detrás daquele trabalho. Em Ciudad Guzmán mesmo, tenho uma escultura do papa João Paulo II na catedral San José e outro dia foram fazer uns retoques nela e queriam tirar a placa que leva o meu nome. Por sorte, um conhecido meu é que estava encarregado do trabalho e explicou para o padre que não podia simplesmente tirar a referência ao autor daquela ou de qualquer outra escultura”.

Na foto, representação do maestro da Orquestra Sinfônica de Guadalajara, escultura composta em 2 meses pelo artista Pedro Sánchez sob encomenda da Prefeitura de Zapotiltic (Foto: Marina Salles)

Em contrapartida, o escultor se sente realizado ao falar de sua obra mais recente que, todavia, está em fase de produção. Sorrindo, ele revela que está gostando dos resultados, “queria ter mais tempo para dedicar-me a projetos pessoais, nos quais não tenho limitações, o difícil é que tenho que pensar em toda a família, precisamos nos manter. Muitas vezes o que acontece é que, ou não te pagam por quanto vale seu tempo, ou te pedem para entregar as obras em um prazo muito curto”.

Sobre o mercado de arte ele comenta que, geralmente, falta discernimento na hora de reconhecer o valor de um trabalho manual, “meus alunos, inclusive, diziam que pechinchavam certas peças e que, agora, que sabem quanto tempo de trabalho precisam investir em um projeto próprio, se arrependem. Também há quem reconheça nossa trajetória, nossos esforços e que, por isso, paga melhor”.

A respeito do assunto, Pedro espera que haja perspectivas de melhora e que seu filho, por exemplo, já não tenha a necessidade de baixar o preço do que são suas obras. “Parece que não, mas nos emocionamos com nosso trabalho, é o caso dessa obra a que estou me dedicando no momento, olho para ela e sinto que só falta se mexer. Para mim, no processo de criação de uma escultura, quando a vejo e tenho a impressão de que ela também me vê é porque me transmite algo, me passa uma mensagem, e isso é bonito. Que pena que não reconhecem esse valor e que isso pode ser um fator limitante para que o artista se entregue completamente ao seu trabalho”.

Publicado em março de 2013

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Consumidor tem problemas para se livrar das taxas

Não perca a conta, saber quanto do seu dinheiro está destinado ao pagamento de taxas pode fazer a diferença

Por Fernando Molina (fcmolina4@gmail.com) e Marina Salles (marina.salles.jor@gmail.com)

Você já parou para pensar quanto paga de taxa sobre os produtos que adquire no mercado? Apesar de essa ser uma pergunta que interfere diretamente no bolso das pessoas, na maioria dos casos, é difícil precisar como e quando certas cifras não deveriam passar despercebidas. Na hora de se divertir, por exemplo, muitos não medem os custos de assegurar uma boa experiência. Mas até que ponto isso pode interferir nas finanças ao longo do mês?


Fique atento às taxas, controle seu orçamento (Imagem: Blog do Onyx)

Para esclarecer algumas dúvidas sobre o repasse de taxas aos consumidores, conversamos com o economista Renato Colistete, que explicou como funcionam as relações entre oferta e demanda, leis fundamentais para o controle da economia. Segundo ele, o repasse de custo e a margem de lucro que recaem sobre o consumidor final são resultado do seu próprio comportamento frente às opções disponíveis para compra. “Se o preço for considerado alto pelos consumidores, a demanda pode diminuir, o que depende por sua vez do grau de essencialidade do produto no orçamento da família. Em geral, quanto maior a importância do produto e menor a existência de produtos substitutos, maior será a capacidade do vendedor repassar integralmente o aumento dos custos (e margens de lucro) aos consumidores finais”.

Nesse caso, é importante registrar a diferença entre um bem essencial e um bem substituto. Os bens essenciais são aqueles que embora possam ter o seu preço reajustado, são tão necessários ao consumo humano que não podem ser substituídos por outros. Um caso clássico é o sal de cozinha, isso porque, independentemente do preço desse produto, somos levados a adquiri-lo para poder temperar os alimentos, daí a sua essencialidade. Já no caso dos bens substitutos, o que ocorre frente um aumento de preço é a resposta do mercado com uma provável redução da demanda. São considerados bens substitutos o requeijão e a manteiga, por exemplo. Sendo assim, quando o custo de um deles se eleva, é possível optar pelo outro sem que se tenha uma perda significativa.

Compras de ingressos via internet: práticas, rápidas e caras!

Conhecendo esses conceitos, fica fácil entender porque certos segmentos do mercado conseguem obter tanto controle sobre seus preços. Segundo a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste), os sites de compra de ingressos via internet chegam a cobrar até 20% de taxa de conveniência sobre o valor dos bilhetes vendidos, isso sem considerar o pagamento pela entrega. Para o Procon, esse percentual é abusivo e embora as empresas já tenham pago multas que correspondem a aproximadamente R$ 4,6 milhões a política de cobranças continua. A alegação das companhias que vendem tickets online é a de que existem custos de infra estrutura que precisam ser pagos de alguma forma.

Para o estudante de engenharia da computação, Marcelo Kiyukawa, essa cobrança é injusta. Isso porque, “querendo ou não já existem muitas taxas embutidas no preço do ingresso”. No que diz respeito à cobrança de um valor que incide sobre o total das compras e não sobre a transação em si, a aluna de medicina da Uninove (Universidade Nove de Julho), Mariana Lemos, considera que essa é uma ação errada. “Concordo que se eu estou fazendo uma mesma compra o valor deveria ser único. Diferente seria se eu comprasse um ingresso agora e outro daqui a um minuto. Afinal, nesse caso sim, seriam compras distintas”. Essa também é a dúvida de quem opta pela compra de uma cadeira na plateia mais cara do que outra e precisa pagar por essa diferença. Dessa forma, segundo uma pesquisa realizada pelo Jornal O Estado de São Paulo, “a cada cinco ingressos comprados pela internet, o brasileiro paga o equivalente a um novo bilhete de taxa de conveniência”.

No cinema, a história se repete

Não é só para estar perto de seus ídolos da música que o consumidor sofre com cobranças “adicionais”. Essa sobretaxa, em alguns casos, até supera a perspectiva da Proteste. O site Ingresso.com, que negocia entradas para vários eventos, shows e cinemas pelo Brasil, chega a cobrar uma taxa de serviço de 15,71% sobre um ingresso inteiro, no município de Cotia. Sendo que, para a meia-entrada da mesma sessão, não há variação no valor da taxa, subindo o percentual para 31,42% do custo do bilhete, pelo mesmo serviço, sem que seja disponibilizada sequer a opção do consumidor imprimir o ingresso ou recebê-lo em casa.

Um estudo do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), feito em 2011, comparou o “peso” do ingresso de cinema em diversas cidades do mundo, quando comparado ao salário mínimo local:


Pesquisa publicada no InfoMoney, em janeiro de 2012, revela que ingressos de cinema de duas das capitais brasileiras estão entre os mais caros do mundo (Imagem: InfoMoney)

De acordo com as informações divulgadas, as cidades brasileiras são das que oferecem os ingressos de cinema mais caros do mundo, entre as 12 estudadas, perdendo apenas para a capital da África do Sul, Johanesburgo.

Para Colistete, existe uma grande convergência nos valores oferecidos pelas grandes redes de cinema, o que pode sugerir a prática de um controle coordenado de preços. Os percentuais das taxas cobradas pelo serviço da compra online também giram sem muita variação e sem apresentar a base utilizada para o cálculo do valor. Esta falta de informação, no entanto, não impede que o consumidor veja vantagem no bilhete eletrônico. “Não tenho noção de porcentagem de aumento [que a taxa gera], mas sei que tem uma diferença bem razoável, para não pegar fila, compensa”, afirma Mariana Lemos, completando: “gosto de ter certeza que vou chegar no local e assistir ao filme, sem ter que me preocupar com o fato de os ingressos terem esgotado”.

Outra polêmica, em pontos fixos ou pela internet, é a oferta de meia-entrada, que é definida por lei para estudantes, idosos, aposentados, professores da rede pública e deficientes físicos. Apesar de ser defendida para promover maior inclusão cultural das classes de pessoas com menor poder aquisitivo, o economista alerta que “o custo desse benefício é repassado ao preço final do ingresso pago pelos consumidores que não usufruem dele”. É este tipo de contrapartida que revolta muitos usuários: “Às vezes me vem o sentimento de estar sendo enganada, mas acho que hoje em dia tudo funciona assim. Mesmo alimentos, qualquer coisa, esta sujeita [à cobrança de] um preço abusivo. Quando conseguimos descontos, é possível perceber ainda mais como as empresas lucram”.

Enquanto isso… nos supermercados

No setor de alimentos, não existe valor cobrado “por conveniência”, mas ainda assim são muitos os fatores que influenciam na definição do preço final dos produtos. Dentre eles estão não só os gastos com matéria-prima e demais custos de produção, mas também a margem de lucro, e, segundo Colistete, a expectativa dos consumidores. “Em geral, quanto maior a importância do produto para o comprador e menor a existência de produtos substitutos, maior será a capacidade do vendedor repassar integralmente o aumento dos custos (e margens de lucro) aos consumidores finais”.


Em um mercado competitivo, a concorrência é aliada do consumidor (Imagem: Economía para la escuela)

Fatores externos que prejudiquem a produção, como o clima, no caso do ramo agrícola, também podem influenciar no preço estampado nas gôndolas. “No caso de quebra de safra, há uma situação dual: para os que perderam sua produção, é um desastre, pois terão de refinanciar suas dívidas com o banco sem a receita de suas vendas; para os que não foram afetados, a situação é ótima, pois os preços sobem como resultado da escassez e eles aproveitam ampliando suas margens de lucro”, completa o especialista.

Redução de taxas, o outro lado da moeda

Apesar da maioria dos exemplos citados aqui fazerem referência a taxas abusivas, cobradas sobre alguns produtos mais ou menos essenciais ao nosso dia a dia, é importante frisar que, de vez em quando, o consumidor também é beneficiado graças, senão ao aumento, à redução de taxas. Um caso que recentemente atraiu olhares curiosos foi a redução do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados) e do IOF (Imposto Sobre Operações Financeiras) para a compra de automóveis.

Nesse contexto, a decisão partiu de autoridades do governo com o objetivo de reduzir os estoques nos pátios e equilibrar a produção. Decisão positiva para os consumidores, a redução desses impostos fez com que ônus da tributação recaísse em maior medida sobre os vendedores de automóveis. Isso porque, com uma demanda mais elástica em relação à oferta, o governo gerou as condições necessárias para que o mercado se reestabilizasse. Em resumo, estimulando a demanda por meio de preços mais acessíveis, a medida aumentou o número de compradores dispostos a sair de carro novo das concessionárias.

Publicado em Novembro de 2012

Construções sustentáveis do piso ao teto

Tecnologias verdes aplicadas à construção civil reduzem custos de operação de edifícios em fase de funcionamento

A palavra sustentabilidade virou sinônimo de consciência frente aos problemas enfrentados pelo caráter finito de importantes recursos naturais. Mas, além da disseminação de um discurso pró-preservação ambiental, o que mais tem sido feito para evitar problemas futuros? No campo da construção civil, empreendimentos planejados com cautela apontam para a gestão de edifícios sustentáveis, que a médio e longo prazo têm sido exemplo de como é possível investir agora para economizar mais tarde. Assim, além da natureza ser beneficiada, novos estímulos garantem o apoio dos grandes empresários à “tsunami verde” que está cada vez mais popular no mundo todo. Fruto de iniciativas nacionais e internacionais, alguns desses projetos foram apresentados na terceira edição da Conferência GreenBuilding Brasil, um encontro que contou com a presença de especialistas do setor da construção sustentável e de profissionais ligados ao ramo, em sua maioria arquitetos e engenheiros.

Exemplo de sucesso na Índia

Parte do projeto da Indústria Bayer MaterialScience, que tem como objetivo desenvolver construções sustentáveis, o EccoCommercial Building levantado na Índia, em janeiro de 2011, é exemplo no setor de edifícios autossuficientes em energia. Segundo Fernando Resende, representante da empresa na Conferência, esse tipo de iniciativa precisa ganhar ainda mais espaço, porque os problemas climáticos persistem, assim como o aumento da taxa de urbanização e o crescimento populacional. “O planeta é o mesmo, precisamos otimizar isso”. Com 900 m² e capacidade para abrigar até 40 estações de trabalho, o empreendimento reflete não só a possibilidade de se reduzir o consumo de água e energia, mas também a viabilidade econômica de se fazer um investimento desse porte.

O Programa Ecco CommercialBuilding é responsável também pela construção de edifícios como esse na Alemanha, nos Estados Unidos e na Bélgica, estando em fase de desenvolvimento dois outros projetos no Brasil e na China. (Imagem retirada de: Mapolis Magazin)

Tratando da importância de se reduzir custos ainda na fase de projeto, o coordenador do programa no Brasil acrescenta: “Uma média de 80% dos custos estão na fase de operação, o que demonstra como um bom planejamento faz toda a diferença”. Localizado na região industrial de Noida, cidade próxima a Nova Delhi, o edifício consome até 50% menos energia do que os prédios da vizinhança. Isso porque conta com a instalação de fontes energéticas fotovoltaicas (placas instaladas no telhado que captam a energia solar transformando-a em energia elétrica) e faz uso de um diferenciado sistema de luminosidade, que controla simultaneamente a entrada de luz e de calor.

Construído com tecnologias capazes de se adequarem a um clima variado, que apresenta temperaturas altas no verão e um frio intenso no inverno, o edifício está adaptado ainda ao fenômeno das monções (período de chuvas constantes), muito comuns no norte da Índia. Dessa forma, foram instaladas, por exemplo, janelas operáveis, que podem ser mantidas abertas ou fechadas a depender da estação do ano; assim como um sistema de isolamento térmico planejado para que o conforto no interior do prédio seja mantido independentemente do clima externo.

Idealizado para gerar a compensação do investimento em no máximo dez anos, esse empreendimento contribui mês a mês para a economia de recursos naturais e de dinheiro nas principais contas que cercam um edifício em funcionamento. Em junho desse ano, o Programa Ecco Commercial Building foi condecorado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, evento associado à Rio +20, com o prêmio “Melhores Práticas Globais em Construção Verde” oferecido pelo Fórum Global sobre Assentamentos Humanos.

Certificações

Para atestar a sustentabilidade de um empreendimento foram criadas certificações como o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), implementado, no Brasil, com a chegada da ONG Green Building Council Brasil (Conselho de Construção Sustentável do Brasil) em 2007. Apoiada por mais de 500 empresas que buscam praticar ações sustentáveis, a organização não governamental oferece também cursos voltados para o setor, a fim de colher novos frutos por meio da educação sócio ambiental. Presente em sete capitais brasileiras, o Programa Nacional de Educação já atendeu 33 mil profissionais, seja em cursos de curta duração, especializações ou MBA.

Atualmente, o Brasil conta com 65 empreendimentos certificados, sendo que outros 525 buscam conquistar o selo. Números esses que, em conjunto, colocam o país na quarta posição no ranking mundial de construções sustentáveis. Resultado da soma de pontos, adquiridos em cada requisito específico colocado pela GBC Brasil, a certificação possui quatro versões diferentes, que podem ser aplicadas a um total de oito tipos de empreendimentos. Entre os principais requisitos analisados estão: reciclagem de materiais e recursos, inovação e tecnologia, eficiência energética e qualidade dos ambientes internos da edificação. Ao todo, no Brasil, existem sete quesitos previamente determinados, sendo possível dar início ao do registro do seu projeto de certificação por meio da plataforma LEED On line.

 

As quatro versões da certificação LEED. (Imagem: Divulgação)

 

Outro selo reconhecido pelo mercado da construção sustentável no Brasil é o Processo AQUA (Alta Qualidade Ambiental), que possui o diferencial de ter sido desenvolvido internamente, permitindo uma maior identificação dos critérios de análise com a realidade brasileira. A certificação é resultado do trabalho da Fundação Vanzolini, instituição privada, sem fins lucrativos, que foi fundada e, hoje, é administrada por professores do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Baseado em um modelo francês de certificação, o selo AQUA possui 14 critérios de avaliação das edificações.

Copa do Mundo 2014

No Brasil, um grande estímulo ao mercado das construções sustentáveis tem sido os empreendimentos planejados para sediar o Mundial de futebol. Pensadas para obter, no mínimo, a certificação mais simples do selo LEED, as arenas onde vão ocorrer os jogos visam aliar projetos bem concebidos a uma cuidadosa realização das obras.

Nas palavras da coordenadora de sustentabilidade da Concremat, empresa responsável por parte do projeto de construção da Arena Pantanal, em Cuiabá: “é necessária uma integração muito grande dos atores envolvidos, sendo um planejamento para a sustentabilidade importante para mitigar impactos”. Nesse sentido, ela defende que algumas medidas simples podem fazer a diferença já no início da construção: “optamos por fazer a prevenção e controle da poluição ambiental, limpar semanalmente o entorno do canteiro, fechar os taludes, umedecer os caminhos que levam [os caminhões e carros] até a obra, controlar os sedimentos lançados no corpo hídrico do entorno e reciclar até 90% dos resíduos gerados”.

 

A expectativa é de que a obra seja concluída em dezembro de 2012. (Imagem: GPC Arquitetos)

 

Dessa forma, tanto ela como a diretora executiva da GPC Arquitetos, Alessandra Araújo, uma das responsáveis pelo mesmo projeto, acreditam que é possível convencer os empresários do setor de que esse tipo de prática também contribui para a redução de custos com os empreendimentos. “A captação da água da chuva resulta em uma economia de água que chega a 30%. Sendo que, o paisagismo feito com espécies nativas reduz a necessidade de irrigação[, economizando água também]”, exemplifica Alessandra.

Segundo dados divulgados pela Reed Exhibitions Alcantara Machado, organizadora da Conferência GreenBuilding Brasil, é possível afirmar que adotando medidas sustentáveis pode haver uma redução média de até 9% no custo de operação de um empreendimento durante toda a sua vida útil.

A última hora

Lançado em 2007, o documentário traça um panorama sobre a relação do homem com a natureza. (Imagem: Divulgação)

Mais uma vez, tratando da simplicidade e da importância dos recursos naturais para a manutenção das mais diversas atividades do nosso dia a dia, o documentário A última hora revela por meio da fala de cientistas e especialistas no assunto informações que, na maioria dos casos, nem sequer fazem parte das nossas estimativas.

Em depoimento para a produção do filme, David Suzuki (cientista e ambientalista) afirma: “Algumas tecnologias nunca seriam capazes de fazer o que a natureza faz. Por exemplo, polinizar as plantas floríferas. Qual seria o custo de tirar o gás carbônico do ar e devolver oxigênio? Coisa que a vegetação faz para nós de graça? É possível dar uma estimativa aproximada do custo de substituir a nossa natureza. O Dr. Robert Constanza [autoridade mundial em estudos a respeito do valor econômico dos serviços oferecidos pelos ecossistemas terrestres], isso já tem alguns anos, estimou um custo de 35 trilhões de dólares por ano para se fazer o que a natureza faz para nós de graça. Para se entender isso, somando-se todas as economias anuais de todos os países do mundo, naquela época, o resultado seria de 18 trilhões de dólares. Então, a natureza fazia para nós o dobro do trabalho desempenhado pelo conjunto de todas as economias do mundo. E na insensatez das economias convencionais, isto não é incluído”.

Resultado da iniciativa do ator Leonardo DiCaprio em tentar aproximar a realidade enfrentada pela Terra da série de transformações naturais aceleradas pelo homem, A última hora apresenta uma gama de motivos para nos empenharmos cada dia mais na missão de tomar atitudes frente à destruição daquilo que temos de mais valioso: o próprio planeta que habitamos.

Publicado em setembro de 2012.

A fome da Profa. Maria Teresa

Maria Teresa conta como nutriu seu interesse pela pesquisa

Maria Teresa Destro é formada em Ciências Biológicas pela UfScar e possui mestrado e doutorado relacionados à Ciência dos alimentos, pela Unicamp e a USP, respectivamente. A carreira da professora que revela não ter considerado a possibilidade de se dedicar à academia durante a graduação, teve início em um laboratório de análises, partindo daí para o ramo da pesquisa e, por fim, para as salas de aula.

Em seu primeiro emprego, em um laboratório de análises de matéria- prima para rações e suplementos vitamínicos para animais, Maria Teresa disse ter feito de tudo, desde lavar as vidrarias do setor até padronizar metodologias. Nesse trabalho, porém, ficou apenas um ano porque, logo depois, decidiu se dedicar à pesquisa.

Segundo ela, sua descoberta como professora veio da experiência de dedicar um dia por semana aos alunos da graduação. “Quando mudei para a pesquisa (ITAL – Instituto de Tecnologia de Alimentos, Campinas) comecei a me envolver com a carreira acadêmica, ministrando aulas às sextas-feiras, após terminar meu horário de trabalho. Isso aconteceu por acaso, e depois percebi que gostava de dar aulas.”

Atualmente, a linha de pesquisa desenvolvida por Maria Teresa está centrada no estudo de bactérias patogênicas. Em um projeto conjunto com a universidade, o governo e as empresas relacionadas à área, ela estuda a possibilidade de diminuir as perdas na indústria de alimentos.

Nesse sentido, está sendo avaliado um sistema de lavagem de carcaças de aves que irá permitir o aproveitamento de proteínas que hoje são descartadas, em função da sujidade que contém. Esse projeto, caso seja aprovado, evitará o desperdício de certos cortes das aves sem afetar a segurança microbiológica do alimento produzido pelas indústrias.

Sobre a dedicação ao estudo da Ciência dos alimentos, Maria Teresa afirma sempre ter gostado de comer e, desde cedo, ter tido interesse em saber como o universo dos alimentos funcionava. “Sempre tive curiosidade para saber o que faz um pão ficar dourado e com casquinha crocante e porque algumas vezes o feijão cozinha e faz um caldo gostoso e outras vezes fica aguado. Quando tive a possibilidade de estudar esses assuntos fiquei super feliz por conseguir entender o que ocorria, e tudo fez mais sentido.”

Para ela, seu mentor Dr. Mauro Faber de Freitas Leitão teve ainda grande importância na paixão que ela nutre pela área de microbiologia de alimentos. “Ele me contaminou e, além disso, foi um grande conselheiro que me mostrou que para fazer pesquisa nesse pais é necessário ter muita persistência.”

Publicado em Novembro de 2011

Aprovação além do estômago

Desde o início desse ano a FJ tem se programado para lançar um projeto de análise sensorial voltado para a área de alimentos.  A análise sensorial avalia a preferência do consumidor sobre um determinado produto com base no estímulo de todos os sentidos humanos. Por meio desse método é possível encontrar diferenças entre os produtos e obter informações sobre os concorrentes.

O modelo de testes adotado pela empresa consiste na experimentação de amostras padronizadas, que seguem a lógica de que não haja interferência na prova de uma pessoa para outra. Os alimentos são servidos à temperatura de consumo, em recipientes de cor neutra – para que a percepção do produto não seja afetada – e em porções iguais, no caso dos sólidos de 20 a 30 gramas de amostra e no dos líquidos de 25 a 30 mililitros. Importante ressaltar que quando é necessário um veículo para a degustação de certos produtos, como um pão no caso da prova de um patê, o veículo fornecido para todas as pessoas é exatamente o mesmo.

Recipientes neutros destacam o produto

Um teste hipotético da análise poderia ser feito, por exemplo, com um iogurte. Supondo-se que o fabricante desse produto quisesse trocar determinado ingrediente, durante o teste se avaliaria a resposta dos consumidores a essa mudança, por meio de estatísticas. Inicialmente, no projeto, a FJ fará as análises com produtos já existentes no mercado, e pensa, futuramente, em complementar o serviço, oferecendo a reformulação desses alimentos e a formulação de novos.

Ainda no caso da análise sensorial aplicada pelos alunos da Farmácia, os degustadores não vão necessitar de preparação alguma para realizarem os testes. A equipe pretende encontrar voluntários no próprio Campus, fazendo contatos por e-mail ou requisitando pessoas pouco antes das experimentações. Só é preciso que os voluntários não estejam há muito tempo sem comer ou que tenham comido muito prontamente, porque dados como esses interferem na sensibilidade às provas.

Segundo o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da FJ, Paulo Vitor dos Santos Souza, a empresa já fez uma listagem de testes e capacitou seus membros para realizarem as experimentações.  E agora espera apenas que se complete a precificação e a composição final do manual de análise sensorial de alimentos – a fim de que a gestão posterior possa dar prosseguimento ao projeto – para iniciar os seus trabalhos.

 Publicado em Outubro de 2011

O próprio incentivo à pesquisa

Como professora e pesquisadora, Nádia não dispensa inovações em sua carreira (Foto: Marina Salles)

Nádia Bou Chacra é, atualmente, professora doutora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo, mas começou sua carreira bem longe das salas de aula. Motivada já durante a graduação a se dedicar à área de pesquisa, foi em seu primeiro trabalho, na ALCON Laboratórios do Brasil, que ela percebeu a real carência de inovações nesse setor.

Na ALCON, Nádia foi testemunha de oito casos de contaminação por um colírio que continha nada menos do que conservantes e dois antibióticos em sua composição, o que lhe causou estranhamento e aguçou sua curiosidade na busca por mais informações acerca dos microorganismos que provocaram esses resultados. Em uma indústria em que a valorização das características de esterilidade dos produtos é altamente importante para que sejam tomadas medidas de ação preventiva, um episódio como esse precisava ser investigado.

Em meados da década de 80, o setor de P&D no Brasil, segundo a própria professora, era quase inexistente. A matriz das principais pesquisas estava no exterior e tudo vinha basicamente pronto para o país, sem que houvesse um trabalho no desenvolvimento de nossa própria tecnologia farmacêutica. E depois dessa primeira experiência, logo no início de sua carreira na indústria, Nádia continuou se dedicando à pesquisa. Após concluir seu doutorado, ela retornou à FCF com o projeto de detectar e quantificar microorganismos por método elétrico. E nesse campo, ela afirma: “a falta de pesquisas resulta, inclusive, na maciça utilização de técnicas desenvolvidas ainda no tempo de Pasteur”.

Professora recém-efetivada na unidade, Nádia foi praticamente designada para implementar estudos acerca da novidade que era a nanotecnologia. Isso porque, difícil seria que os professores com mais anos de casa e com suas pesquisas já consolidadas se dispusessem a iniciar algo tão novo, nesse patamar avançado de suas carreiras.

No Rio Grande do Sul, trabalhando com a também professora doutora Silvia Guterres, Nádia conquistou a primeira patente de nanotecnologia polimérica para a FCF. A nanotecnologia aplicada ao setor farmacêutico, cujas pesquisas são desenvolvidas no RS, tem o objetivo de criar medicamentos com ação precisamente localizada, mantendo intactas as partes saudáveis do corpo. Além da aplicação relacionada ao tratamento de doenças, os nanofármacos podem agir, por exemplo, no controle de distúrbios causados pela constante mudança de fuso horário.

Mas foi apenas no Canadá, durante seu pós-doutorado, que Nádia Chacra acredita ter encontrado um tema, dentro da nanotecnologia, que realmente a agrada. Orientada por Rainer Muller, ela diz que “o professor é um aluno, já que está sempre aprendendo”. E revela ter grande apreço por aquele que a ensinou muito sobre a nanotecnologia de lipídios e cristais, a que hoje ela se dedica. “Eu quero ser o professor Rainer Muller”, diz a professora, que apesar da vasta experiência, se considera também uma aprendiz.

Publicado em Agosto de 2011

A interrupção de uma história?

Colaboraram Talita Nascimento e Teresa Perosa

Chega a guerra e com ela a necessidade de sair de um território que foi cenário de uma vida por anos a fio. A construção de uma nova história em outro lugar? Difícil. Novos costumes, um novo idioma, vidas sem rumo na esperança de recomeçar. Passado, presente e futuro não se cruzam mais, fazem parte de outro universo. A única certeza que esses refugiados levam na ínfima bagagem é a de que dali por diante terão que dar um novo propósito à sua vida se quiserem continuar.

Uma questão de escolha

Ele tem 65 anos e desde os dois já sabe o que é ser um refugiado. Ghazi Shahin nasceu na Palestina, e em 1948 foi obrigado a se mudar para o Iraque. Intensificava-se a discussão sobre se criar o Estado de Israel, reduto judeu em território palestino. Ghazi trabalhava como músico de Saddam Hussein, sendo reconhecido por suas canções em todo o mundo árabe.  Em 2003, com a queda de Saddam e a invasão norte-americana ao Iraque, ele teve como destino o campo de refugiados de Ruweished, no deserto da Jordânia. E, quatro anos e meio após a desativação desse acampamento, junto com um grupo de 57 palestinos, veio para o Brasil, chegando a Mogi das Cruzes, no estado de São Paulo.

Refugiados palestinos chegam ao Brasil em 2007

Clima de comemoração na chegada de dos refugiados à Mogi das Cruzes (Foto: Reuters)

Sua filha mais nova nasceu em 1997, década em que acredita que as mulçumanas puderam começar a trocar as pesadas vestes por uns e outros trajes mais próximos da cultura ocidental. No entanto, sempre fazendo uso do véu, uma das marcas características de sua religião. Filha de Ghazi e Faten, Nour já domina o português relativamente bem, se considerarmos o tempo em que está no Brasil. A jovem faz planos de continuar seus estudos aqui.

Já seu irmão, hoje com 35 anos, casado e doutorando em Semântica Árabe, põe em dúvida as vantagens de ele próprio permanecer no país. Distante da esposa há seis meses, já que ela obteve refúgio na Suécia, ele entende que talvez os mais sensatos nessa história tenham sido seus parentes que permaneceram no Iraque.

Ghazi tem dificuldades em lidar com o novo idioma e conta com a tradução da filha para se comunicar conosco. Foi por meio dela que soubemos que o pai não sente que lhe falte alguma coisa no Brasil e que o tranquiliza o fato de estar longe das zonas de guerra, cenário com o qual conviveu desde cedo. Ele considera ainda que, no Brasil, a tolerância não só étnica, mas também religiosa, traz um convívio mais harmônico para as pessoas. Quando perguntamos se ele teria a intenção de voltar para o Iraque, Nour nos diz que a vida deles está aqui agora, que os antigos vizinhos vieram juntos para cá também em 2007 e que tem pouco sentido voltar para lá.

Na opinião da menina de 14 anos, um novo recomeço dificultaria seus estudos, uma vez que hoje ela frequenta a escola municipal da cidade e está em busca de uma reclassificação para poder cursar a série compatível com a sua idade. Nour está na quarta série do ensino fundamental e aguarda o resultado de uma prova para ser transferida para uma escola estadual, onde deverá cursar o nono ano. Bastante extrovertida, ela revela estar se adaptando bem à nova realidade e demonstra, além disso, sua satisfação com a escola e os amigos brasileiros.

No caso de seu irmão, que prefere não ter o nome citado, o desgosto em permanecer no Brasil está principalmente no fato de que a decisão de continuar ou não aqui independe dele. Empregado em uma empresa árabe de exportação relacionada ao ramo de abatedouros e frigoríficos, ele reclama da falta de mobilidade que o impede de desfrutar de melhores oportunidades de emprego, as quais já lhe foram oferecidas pela empresa em que trabalha. Impedido de viajar, ele não tem permissão para visitar a esposa ou ir ocupar postos de trabalho na Turquia, como lhe foi proposto. Para ele, não restam dúvidas da importância de retornar ao seu país de origem que, apesar de perigoso, guarda seus costumes e muitos de seus parentes. Filho de outro casamento de Ghazi, ainda tem familiares que permaneceram no Iraque e diz que gostaria muito de voltar a vê-los. No entanto, em razão da permanência de sua esposa na Suécia, seu intuito é o de refugiar-se nesse país assim que possível. Isto é, quando obtiver licença para viajar, o que embora não seja legalmente proibido, lhe tem sido negado. O artigo 39, parágrafo único do Estatuto do Refugiado, previsto na Lei nº 9474/97 prevê apenas em caso da perda da condição de refugiado o enquadramento no regime geral de permanência de estrangeiros no Brasil. Mas, na prática não tem sido assim. Por arbitrariedade ou desconhecimento da lei, as autoridades aeroportuárias não permitiram a saída do irmão de Nour do país.

Dificuldades sobrepostas

Entre os membros da família de Hossam, outro refugiado palestino do grupo, as divergências sobre o retorno ao Oriente Médio já não parecem tão claras. As preocupações desse pai de família de 40 anos são tantas que ele mal tem condições de pensar em planos futuros. Nos quatro anos em que passou aqui, Hossam diz não se lembrar de um dia em que tenha sido feliz. Hoje, ele vive com a esposa e quatro filhos em Mogi das Cruzes, sendo que dois deles enfrentam sérios problemas de saúde. O filho Ayham, de 11 anos, sofre com constantes crises de asma e não encontra atendimento médico nos hospitais bastante lotados da região. Já a filha Nouzha, de apenas um ano de idade, após ter levado um tombo e batido a cabeça, enfrenta recorrentes convulsões. Levada ao médico pelos pais, a menina foi submetida somente a uma radiografia, mas precisaria de exames muito mais específicos. Diante dessa situação e recebendo apenas 100 reais de auxílio mensal por criança, Hossam critica a iniciativa brasileira de receber refugiados, tendo em vista que o governo, em sua opinião, já não cuida dos próprios brasileiros. Ele trabalha o dia inteiro em uma lanchonete-estacionamento, que consegue manter a custo da ajuda de amigos.

Sua esposa Fátima, de 23 anos, e a irmã, Huda, de 21, reclamam da falta de vagas nas creches. Com seis filhos pequenos e sem condições de contar com a ajuda dos maridos durante o dia, em razão de ambos estarem trabalhando, elas se dividem entre os afazeres da casa e o cuidado com as crianças. Também com dificuldades em aprender o português, as mulheres gostariam de dedicar um pouco do seu tempo aos estudos.

Refugiados palestinos em Brasília

Huda, mesmo grávida, comparece a protesto em Brasília por melhores condições aos refugiados. (Foto: Arquivo Comitê de Solidariedade ao Povo Palestino)

Quanto ao retorno ao seu país de origem, tanto Fátima quanto sua irmã, Huda, dizem preferir estar, na verdade, próximas de sua família, que vive agora nos Estados Unidos. Preocupadas com o estado de saúde da mãe, que precisa de uma cirurgia na perna, elas gostariam de poder ajudá-la. Já há quatro anos sem vê-la, em função da impossibilidade de viajar, as refugiadas esperam pela regulamentação de seus documentos e pela possibilidade de voltar a viver com os parentes.

A realidade da reconstrução

A vida é uma eterna construção. Para os que estão no começo, ainda na edificação dos pilares, vê-se nitidamente a esperança nos olhos. Para aqueles cujo alicerce já faz parte do passado, resta a busca pelo reencontro. E se para os mais velhos parece que se conformar é a única saída para que eles não desmoronem, então estamos muito enganados. Porque eles também precisam continuar e querem saber como podemos ajudá-los.

Vídeo mostra Gazhi reconstruindo seu passado na música em território brasileiro.

Quatro das famílias da comunidade palestina de Mogi das Cruzes sofrem desde 2009 com falta de auxílio do governo brasileiro, quando foram interrompidos os benefícios que custeavam seus aluguéis. O ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para refugiados), que tem como parceiro atual o CDDH (Centro de Defesa dos Direitos Humanos) e que antigamente mantinha convênios com a Cáritas Brasileira, pouco tem feito para assessorar os palestinos desde a sua chegada. As promessas feitas na Jordânia ainda não foram cumpridas. Segundo os palestinos, lhes teria sido garantido que não faltariam aqui: tratamento médico-hospitalar, assistência jurídica, aulas de português, moradia e emprego. Mas o que encontraram foi bastante diferente.

Um apoio contraditório

Um exemplo da deficiente assistência médica oferecida aos refugiados foi o ocorrido com a mãe de Hossam, que não resistiu a mais de três meses sem tratamento e veio a falecer no Brasil. Com sérios problemas na coluna e sem dispor de uma cama adequada para evitar complicações no seu quadro de saúde, ela foi levada a dormir no chão para não ter que deitar-se no colchão de espuma, completamente inadequado às suas necessidades. Dessa forma, acabou por desenvolver uma pneumonia, que sem os devidos cuidados resultou em seu falecimento.

Além disso, a resolução do problema de moradia é de extrema urgência para os refugiados. Muitas famílias correm o risco de serem despejadas, já que seus fundos para o pagamento de aluguel foram cortados. Uma alternativa de longo prazo, no entanto, também lhes foi negada. A possibilidade de inclusão dos refugiados no programa brasileiro Minha Casa, Minha Vida não é viável, segundo um decreto emitido em novembro de 2010, pelo prefeito de Mogi das Cruzes. Em nota, a prefeitura da cidade afirma que para fazer parte do programa é necessário ser “brasileiro nato ou, se estrangeiro, ser detentor de visto permanente no Brasil”, condição que nenhum dos refugiados de Mogi das Cruzes ocupa.

Outro problema enfrentado pela comunidade é a assistência aos idosos. O recebimento de um salário mínimo mensal do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social) está sendo negociado para pelo menos três refugiados com mais de 65 anos, que hoje contam com o auxílio dos mais jovens para sobreviver. A assistência, no entanto, não chega sem que seja necessário recorrer em outras instâncias, o que demonstra o descaso das autoridades competentes no auxílio a essas pessoas. O Ministério Público Federal está em busca de uma liminar para adiantar o processo de recebimento desse benefício, uma vez que esses idosos têm muitos custos com que arcar, principalmente relacionados às questões de sua saúde.  O INSS regulamenta que apenas estrangeiros naturalizados recebam o benefício.

Partindo do zero

A dificuldade em encontrar emprego é outro desafio encontrado pelos refugiados. A falta de reconhecimento de seus diplomas implica na busca por vagas que exigem menos qualificação e o fato de muitos não dominarem o português os distancia ainda mais do mercado de trabalho nacional. Ghazi Shahin era diretor de Teatro e Cinema em Bagdá e hoje está desempregado. Quando de sua chegada, tentou abrir um restaurante que, todavia, já não existe mais. Em razão do alto preço dos ingredientes, ele não conseguiu manter seu negócio aberto. Ghazi espera por uma vaga em uma empresa do ramo de frangos que ao que tudo indica irá contratá-lo. Já seu filho, doutorando em Semântica Árabe, foi admitido em uma empresa ligada ao ramo de frigoríficos e abatedouros já que, por ser mulçumano, domina determinada técnica de corte bovino que muito interessa a essas empresas. A falta do reconhecimento de seus diplomas muito aflige aos refugiados. Ghazi ganhava três salários quando vivia no Iraque e hoje, aos 65 anos, luta para conseguir um emprego que contribua com o sustento básico de sua família.

Os refugiados palestinos de Mogi das Cruzes vivem em situação de desamparo perante as autoridades. Sem condições de atender às suas necessidades, o governo brasileiro continua a receber pessoas com alta fragilidade social, se esquivando de lhes dar assistência. Como o próprio Hossam menciona em seu depoimento, não há perspectiva de se atender refugiados em um país que não cuida de seus próprios cidadãos. O desamparo à comunidade de Mogi das Cruzes se revela aos poucos em cada história interrompida, nas vidas que se seguem sem razão de ser e na espera por melhorias, senão para muito além da expectativa dos mais novos.

Como ajudar

O Comitê de Solidariedade ao povo Palestino possui uma conta, pela qual é possível fazer contribuições voluntárias, com o intuito de dar suporte e ajudar na inclusão social dessas pessoas abandonadas pelo Estado brasileiro. A proposta é que cidadãos colaborem mensal ou bimestralmente, com depósitos de qualquer valor na Caixa Econômica Federal (Agência 0350, conta poupança 013, nº 00020048-0), para atendimento das necessidades básicas dos refugiados palestinos. Mais informações podem ser obtidas por meio do endereço eletrônico de Mauro Rodrigues de Aguiar, membro do Comitê: mroag@ig.com.br.

Publicado em Outubro de 2011