O perfume da colheita

Por Marina Salles e Talita Nascimento

– A média, a média é de uns 40 km por dia, depende do setor que a gente trabalha. Tem dia que terminando o setor da gente vamos ajudar os outros ainda.

– Dizem que é uns 40, 42 km/dia. Mas é mais.

– Tem hora que eles é que fazem eu andar. ‘Vamo, vamo, porque senão num acaba. Quanto mais rápido melhor’. Eu ando que nem eles andam.

José Eterno já tem os filhos criados e estuda a noite para terminar logo a escola. Danilo, por sua vez, tem duas filhas pequenas e um menino que está a caminho; ele garante que o trabalho compensa, pois já ganhou até televisão. Os dois garis têm a companhia de um motorista cuidadoso, Ademir. Com 22 anos de profissão, ele trata os colegas de trabalho com jeito de pai: “Tem que preocupar com os meninos [como se refere aos garis], com o pessoal na rua. Se você machucar um menino desses, você é responsável por ele”.

Ademir fala que “com uns garis bons assim” ele consegue chegar a até 30 km/h.
Há dias em que o trajeto demora 8 horas, mas segundo José Eterno, “às vezes até menos, dependendo, até em 5 horas. O dia mais quente, é mais lixo. Assim, o dia mais frio, se tiver chovendo, é menos lixo. Você vai fazer em duas viagens e termina em uma viagem só. No caso, eu acho que chove e o pessoal produz menos lixo. Tem lugar que é uma, duas sacolinhas. Mas em dia quente mesmo, daqui até dezembro, é assim… As ruas fica florida de lixo! Acho que o pessoal come mais”.

No meio desses jardins, tem pessoas de todo tipo e Eterno conta um causo: “a gente entra num condomínio desse, chega uma pessoa e fala ‘bom dia’, nós até admira. Porque nem todo mundo dá ‘bom dia’. Você sabe quem falou comigo outro dia? Você vê, é um garoto famoso né, na verdade, dois. Foi o Zezé di Camargo e o Luciano, perguntaram: ‘ah, como tá o preparo físico de vocês?’. ‘Tá tudo bem né, graças a Deus’ e continuamos. Deu luz alta e achamos que ele tava querendo passar, mas que nada! Tava querendo conversar com nós mesmo. Ele mora em outro condomínio, só que tava lá no Tamboré, jogando uma bolinha… e passou e cumprimentou nós, gente boa ele”.

O time trabalha de segunda a sábado recolhendo lixo e ainda tem escala no domingo. Há quem pense que isso atrapalha o convívio com a família. Mas Danilo comenta, “Tem gari que tem 4, 5 filhos, vai vendo, vai vendo”. Ele mesmo não esquece da esposa e das filhas na hora do trabalho. Sortudo, em um sábado de feira encontrou dois pares de botas para a mulher e um par de tênis novinhos para as filhas.

A rotina de trabalho é marcada por muito esforço físico, Ademir diz que os problemas aparecem a longo prazo, principalmente, por causa do excesso de peso que os garis carregam, o que gera dores na coluna. “Quando vai chegando a idade você apresenta tudo. Eles cansam muito e se machucam. Às vezes o pessoal enche muito os sacos, fica pesado, pega sozinho, se machuca”, conta. Além do peso, objetos cortantes também são responsáveis por acidentes de trabalho.“Já me cortei assim: na coleta, correndo, pega um saco de lixo, não vê e se corta! Tive um corte, já sarou! Mas foi 3 pontos” – lembra José Eterno.

Vidro, agulhas, cachorros, “eu já vi caminhão passar por cima de gari” diz o motorista. Apesar dos perigos, os três companheiros levam o trabalho como outro qualquer e Danilo ainda vê vantagem:“é sempre muito chefe pra pouco índio, então aqui é melhor, não tem ninguém em cima, o salário é melhor, dá pra sustentar a família, fora as coisas que a gente ganha também”.

– Hoje eu tô meio atrasado, porque tem a feira, né.

– Não vejo a hora de ir pra casa, ver minha mulher…

– A gente termina aqui a coleta domiciliar e depois vai lá limpar a feira, limpar tudo, enche o caminhão e nós vamos embora pra descarga.

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Cleide

“Quando eu estou com roupa normal assim que nem vocês, eu passo pelas pessoas e as pessoas até dão espaço pra eu passar, quando eu estou com essa roupa só falta passar por cima, ninguém respeita, pensando que porque está desse jeito é lixo!”. Maquiada e de brincos, ela solta o cabelo para a foto. Cleide Dias Alves de Menezes não tem só o nome com pinta de artista, mas já de longe chama a atenção por seu jeito comunicativo e alegre.

Auxiliar de limpeza de um dos mais movimentados shoppings da zona leste de São Paulo, Cleide varia sua rotina de trabalho entre a praça de alimentação e a higienização dos banheiros. “Eu gosto de trabalhar assim no meio do público porque eu esqueço dos problemas, eu converso, dou risada, me divirto, eu vejo coisas bizarras…”.

No posto há aproximadamente dois meses, já teve diversas ocupações. “Olha, eu já fiz de tudo. Já vendi chocolate no trem, trabalhei de telefonista, trabalhei na fábrica de brinquedo. Trabalhei em um monte de lugar, cada lugar um pouco, mas eu nunca fiquei parada. Eu costumo falar: ‘Eu nunca roubei, nunca matei, mas o resto…’”. Ao que completa: “nunca me prostitui também! De tudo já trabalhei. Trabalhei no farol vendendo chocolate com as minhas filhas, porque eu sou separada, né…”.

Cleide tem três filhos: Cláudia, Samuel, Natália e um neto, segundo ela, “inteligente, inteligentíssimo”. A auxiliar que mora em Itaquaquecetuba e viaja todos os dias para chegar ao emprego, colocou a família inteira para trabalhar: “Tava todo mundo desempregado, aí eu arrumei emprego e falei, vai ter que todo mundo trabalhar pra me ajudar!”, no entanto, ela considera o estudo importante. Os filhos mais velhos abandonaram a sala de aula, o que a deixa entristecida, mas ao mesmo tempo em que incentiva a mais nova a continuar cursando o Ensino Médio, também pensa em se qualificar profissionalmente. Ela concluiu a oitava série e gostaria de estudar Segurança do Trabalho na faculdade.

A vontade de trocar de área vem do desconforto com a execução do trabalho: “É uma profissão honesta, eu gosto do que eu faço, em partes, mas é muito humilhante. As pessoas não dão valor, por mais que elas necessitem do nosso trabalho. Ontem mesmo eu estava no banheiro e a moça disse: ‘Ah, eu jogo mesmo, quero ver ela reclamar’. Não quero servir de escracho para os outros”. Cleide conta ainda que a falta de ver o resultado do trabalho também a incomoda: “Trabalhei na área hospitalar, lá você limpa teto, parede, limpa o chão, deixa tudo bonitinho. Limpa o quarto para o paciente entrar e aí você vê a sua limpeza, mas aqui você tá limpando e o povo tá passando por cima”.

Fora do expediente, Cleide se preocupa com as pessoas que cuidam do seu lixo. “Ah, separo, separo tudo bonitinho! Que nem hoje, eu separei até os dejetos do cachorro. Vou separando cada lixo! Lixo orgânico, metal, plástico. Até o óleo eu coloco dentro das garrafas. Ela sabe ainda que existem outros tipos de resíduos e, por isso, lembra dos catadores, “pra eles não precisarem rasgar o lixo, eu já deixo tudo separadinho de cantinho: o papelão, a latinha, a garrafa, já pra eles pegarem”. Comparando o lugar aonde mora com o destino que o lixo tem no shopping, ela comenta: “Latinha? Eles jogam latinha fora, ai que pecado! Latinha lá perto de casa é dinheiro. Se eles me dessem…”.

Além da maquiagem, Cleide não dispensa o perfume. Perguntam se o cheiro dos resíduos a incomoda, ela prontamente responde: “Não! Eu passo perfume, as moças passam perfume em mim, esses dias eu falei no banheiro: ‘nossa, que perfume gostoso!’ A moça me encheu de perfume! Era da… Como é o nome dela mesmo? Da Britney.

Artrópodes Anônimos

Besouro da família Cerambycidae, a ordem a que pertence possui mais de 25.000 espécies descritas! (Imagem: Arquivo pessoal)

João Paulo Morselli é biólogo formado pela Universidade Sagrado Coração, em Bauru, e possui muitos outros títulos que agregaram, além de conhecimento, mais entusiasmo à atividade a que ele se dedica. João procura insetos. “Na verdade, meu interesse pela taxonomia, foi uma consequência da minha paixão, desde a infância, pelos insetos. Tive a sorte de crescer no Interior, o que facilitou o meu contato com a natureza e influenciou muito na escolha da minha profissão”. No quintal de casa, ele capturou seus primeiros exemplares.

No caso de Luiz Alexandre Simões de Castro, a descoberta veio nos tempos da faculdade, depois de cursar disciplinas relacionadas ao tema na UNESP de Rio Claro. E se até aqui você já considera a ideia de ser taxonomista um tanto curiosa, o que dizer do grupo que ele resolveu estudar? Ácaros límnicos? O quê? Ácaros de água doce, muito prazer! Segundo ele, não há outros pesquisadores no Brasil que trabalhem com o grupo. “Aí então pensei: quero ser o primeiro. Não que eu quisesse ficar famoso por isso, mas é mais desafiante, além da chance de você encontrar espécies novas devido à grande diversidade do nosso país”.

Na foto, João Paulo na companhia de um louva a Deus da ordem Dictyoptera. (Imagem: Arquivo pessoal)

Parente da cigarra, o inseto da foto faz parte da família Fulgoridae (Imagem: Arquivo pessoal)

Para ambos, o fundamental de continuar catalogando novas espécies está não só no fato de que, assim, será possível reconhecer a biodiversidade que o Brasil possui, mas também de justificar a preservação dos hábitats em que vivem estas espécies. João Paulo destaca ainda que a taxonomia se relaciona com “a possibilidade de estabelecer relações evolutivas entre essas novas espécies e aquelas que já são conhecidas pela Ciência”, o que contribui para o estudo da Sistemática. Além disso, ressalta a importância do tema para questões econômico-sociais, “estamos destruindo antes de conhecer organismos que de certa forma podem nos trazer benefícios na área da saúde, como com a descoberta de novos compostos para elaboração de medicamentos”, exemplifica.

Digno da edição impressa do Claro!, o Tropidacris sp já é conhecido dos taxonomistas a um bom tempo (Imagem: Arquivo pessoal)

Em relação ao trabalho prévio que envolve as saídas a campo, para a efetiva “procura”, os dois concordam que é preciso haver planejamento. Para o pesquisador que se dedica a buscar ácaros de água doce não podem faltar na bagagem: “macacão à prova d’água, rede, frascos de plástico, etiquetas e GPS para marcar o ponto de coleta exato”. Ao que o companheiro de profissão acrescenta: “a decisão de achar os locais propícios para determinados tipos de coleta, geralmente, não é aleatória, antes de sair a campo também fazemos um estudo prévio de regiões endêmicas onde podemos encontrar determinadas espécies que nos interessam”.

Mas o curioso mesmo é saber que apesar de toda a experiência que possuem nessa profissão os pesquisadores também contam muito com a sorte. Luiz Alexandre, revela: “uma vez encontrei uma espécie rara do gênero Tyrrellia que, segundo a literatura é encontrada nas margens de lagos e poças. Ela é grande e pode ser vista a olho nu. Depois de um dia inteiro procurando-a, já estava indo embora e já tinha até guardado todo o material de coleta. De repente, me deparei com um indivíduo na beira de uma poça d’água, andando lentamente. Coletei-o imediatamente, mas como já havia guardado meu material, coloquei o ácaro em uma garrafa de água mineral que carregava comigo”.

E aí? Dá para acreditar que esse ácaro tem só 0,8 milímetros? (Imagem: Arquivo pessoal)

E, então, qual a hora certa de decidir voltar para casa? “O tempo de busca é relativo ao sucesso da coleta, isto é, se você conseguiu coletar um número de indivíduos que você acredita que seja satisfatório, o que geralmente não acontece quando falamos em insetos, talvez seja o momento de retornar ao laboratório, para iniciar as suas análises. Mas segundo meu antigo orientador, quanto mais, melhor!”.

Referindo-se à sua área de atuação Luiz Alexandre completa: “o material deve ser levado para o laboratório e devem ser montadas lâminas de microscopia para determinar com certeza a família e o gênero do animal. Muitas vezes, é necessário fazer uma investigação mais detalhada, usando microscopia eletrônica de varredura para determinar a espécie. Mas para isso, antes o corpo do ácaro tem que ser dissecado. Em seguida, você deve comparar a morfologia do animal com outras descrições presentes na literatura. Às vezes, é necessário enviar o animal para outros especialistas, em outras universidades ou centros de pesquisa ao redor do mundo. Outras vezes você também pode pedir os animais depositados em museus para comparar com os seus e decidir se a espécie é nova ou não. Mas decidir se uma espécie é nova ou não, não é tão fácil assim. Há casos em que a mesma espécie é descrita mais de uma vez por pesquisadores diferentes. Outras vezes é nomeada como nova, mas na verdade já havia sido descrita anteriormente”.

Pontinhos mais escuros são ácaros aquáticos, triados ainda no campo, com o auxílio de uma pipeta (Imagem: Arquivo pessoal)

Depois de se certificar de que a espécie é nova mesmo, João Paulo brinca e diz que “o procedimento padrão é publicar a descoberta em alguma revista especializada no assunto e de impacto internacional antes que alguém faça isso”. Sobre a escolha do nome dos animais, que em geral fica a cargo dos pesquisadores que descobrem a espécie, Luiz Alexandre diz que prefere não homenagear a família, “apesar de gostar de ácaros e achá-los lindos, eu não daria o nome da minha esposa ou da minha filha a eles. Elas são muito mais bonitas que os ácaros (risos)”.

Tão raros quanto as espécies que procuram, os taxonomistas estão em falta no Brasil, o que pode ser reflexo da carência de postos de trabalho no setor. “O mais comum é trabalhar em museus, como por exemplo o Museu de Zoologia da USP, mas geralmente na condição de professor especialista em determinado grupo”, afirma Luiz Alexandre. Segundo João Paulo, no entanto, “a área de atuação pode ir desde o ensino até a área das consultorias ambientais, o que tem crescido muito nos últimos anos”.

Publicado em setembro de 2013