Conforto em aeronaves é tema de palestra na Poli

São Paulo (AUN – USP) – No dia 7 de novembro, durante a 2ª Conferência USP sobre Engenharia realizada na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), especialistas brasileiros e estrangeiros discutiram o tema de projetos relacionados a fatores humanos. Entre os estudos apresentados, está o Centro de Engenharia e Conforto (CEC), coordenado pelo professor Jurandir Itizo Yanagihara, chefe do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli.

Segundo Yanagihara, o CEC surgiu da parceria da USP com a Universidade Federal de Santa Catarina, a Universidade Federal de São Carlos e a Embraer, a fim de propor análises mais específicas sobre os itens que influenciam no conforto dos passageiros nas cabines das aeronaves da companhia.

Localizado na Poli, o laboratório é um dos mais completos do mundo, sendo que só há um similar no Instituto Fraunhofer, na Alemanha. Constituído de uma sala de embarque com as características de um aeroporto convencional, o empreendimento conta também com uma cabine que permite simular as condições de um voo real. Assim, desde abril desse ano, os pesquisadores têm realizado testes para somar dados experimentais relevantes às pesquisas com modelos matemáticos.

Sujeitos a estímulos que variam da emissão do ruído provocado pelo pouso ou decolagem de um avião comum até a sua temperatura ou luminosidade interior, os voluntários manifestam respostas que permitem aos engenheiros envolvidos no projeto avaliar com maior precisão o conforto do ambiente durante a suposta viagem.

Com o intuito de obter dados consistentes, o pesquisador revela que os descritores voluntários são submetidos a um treinamento, que também é planejado com o apoio de profissionais da área de psicofisiologia. Acostumados a lidar com o tema da subjetividade, esses profissionais são responsáveis pelo suporte à realização dos testes de medição do conforto nas aeronaves. “Para saber se determinado medicamento está surtindo efeito é necessário fazer uma análise objetiva, que nem sempre vem do próprio paciente”, sendo esse conhecimento prévio muito útil para a pesquisa no CEC.

Para Yanagihara, uma das vantagens do estudo está na possibilidade das empresas conhecerem quais os fatores que mais interferem no conforto dentro das aeronaves, a fim de que também possam alocar melhor seus recursos nos diferentes setores que fazem parte desse conjunto. Satisfeito com a chance de produzir noções mais aprofundadas sobre um assunto que possui efeitos práticos, o professor conclui. “Esse conhecimento todo não está disperso em relatórios, mas foi sintetizado em ferramentas computacionais capazes de serem inseridas no projeto da Embraer.”

Publicado em: 14/11/2012

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Reconstrução de vídeo-avatares aproxima usuários do mundo virtual

Membro do Laboratório de Tecnologias Interativas do Departamento de Engenharia Elétrica (Interlab) da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), Daniel Makoto Tokunaga desenvolveu durante o seu mestrado uma pesquisa relacionada às técnicas de reconstrução de vídeo-avatares tanto para a aplicação em jogos eletrônicos como para a transmissão de conferências ou cursos a longa distância.

Segundo ele, atualmente, quando o assunto é sobrepor dados da realidade com artes gráficas ou animações, é muito comum que se utilizem imagens sem profundidade, seja no computador ou na televisão. Dessa forma, “na maioria dos casos, a representação da pessoa fica restrita a duas dimensões e o que aparece é uma imagem plana dentro do ambiente virtual”. A título de exemplo, Tokunaga cita os jornais televisivos, comentando que é usual que o cenário do programa seja virtual, sendo que, nem por isso, a imagem do repórter passa a ser 3D, permitindo a visualização em diferentes ângulos em um mesmo instante.

Sobre esse fato, o pesquisador explica que o conflito de informações entre o mundo virtual e o real pode limitar a percepção que o usuário tem de sua interação com o todo. Assim, ao olhar na tela, a ideia é a de que os elementos apresentados são destoantes, principalmente no caso dos jogos. Uma das alternativas propostas por Tokunaga para melhorar a interação do usuário com o ambiente virtual é, além da criação de imagens tridimensionais, a atribuição de traços de cartoons às representações.

Para tanto, ele revela ter utilizado câmeras com sensor infra-vermelho, capazes de medir – por meio do tempo necessário para o pulso percorrer o caminho de ida e volta até o aparelho – a profundidade daquilo que capta. Apesar de possuírem um alto custo, hoje, esses equipamentos podem ser substituídos por outras tecnologias que ainda não existiam em 2010, quando Tokunaga defendeu sua tese. Atualmente, com o Kinect (sensor de movimento do videogame X-Box 360) essa tecnologia ficou um pouco mais acessível. Mesmo assim, o estudante pondera: “se considerarmos um público alvo mais geral, pode-se dizer que temos outros desafios”.

Em relação ao setor educacional, o pesquisador revela que a reconstrução de vídeo-avatares pode melhorar, por exemplo, a qualidade da relação que o usuário estabelece com seu professor. Geradora de imagens em diferentes ângulos, essa tecnologia foi avaliada positivamente no sentido de promover uma maior interação com o ambiente retratado.

Jogos sérios

Os estudos são aplicáveis ainda à área dos “jogos sérios” – termo que ficou conhecido no ramo para designar jogos que, além de lúdicos, promovem algum tipo de aprendizado. Sobre essa linha de pesquisa, o professor Ricardo Nakamura, também do Interlab, destaca um projeto desenvolvido juntamente com a Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH/USP) para a reabilitação de deficientes físicos.

De acordo com Nakamura, a ideia é auxiliar nas atividades de fisioterapia, uma vez que “as sequências de movimento são cansativas e, às vezes, até dolorosas, sendo importante que se tornem mais atrativas”. Na opinião dele, é fundamental ainda que os jogos sejam validados junto a profissionais do ramo, levando-se em consideração se atingem ou não o objetivo para o qual foram propostos.

Método de avaliação contribui para a eficiência na produção de papel sulfite

São Paulo (AUN – USP) – Na linha dos estudos desenvolvidos pelo Grupo de Prevenção da Poluição do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (GP2), Guilherme De Paula Galdiano dissertou em seu mestrado sobre o inventário do ciclo de vida do papel offset produzido no Brasil, categoria de papéis para imprimir que registra altos níveis de produção e consumo no País.

Com o objetivo de minimizar os impactos ambientais negativos que a indústria química, principalmente, gera durante o processo de transformação de determinados produtos, o GP2 adotou como chave para as suas pesquisas a metodologia de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), que também faz parte do trabalho de Galdiano. Segundo ele, “a ACV consiste em um procedimento para analisar a complexa interação de um sistema com o ambiente ao longo de todo o seu ciclo de vida”, ou seja, “do berço ao túmulo”, perspectiva pela qual a análise ficou conhecida.

Dessa forma, entre as aplicações da ACV estão: a possibilidade de avaliar a adequação ambiental de certa tecnologia, processo ou produto, no que diz respeito ao uso eficiente de recursos e à geração de resíduos, a identificação de possíveis melhorias na cadeia de produção e a comparação de alternativas tecnológicas – quando um processo ou produto é destinado à mesma função. Além disso, Galdiano destaca a importância da ACV na “geração de informações para os consumidores e o meio técnico, que poderão servir de base para a rotulagem ambiental e até facilitar a introdução de um determinado produto no mercado ou, no extremo oposto, sustentar o seu banimento”.

No caso do setor de papel sulfite, o pesquisador vê com bons olhos as práticas sustentáveis que têm sido adotadas pelas empresas, mas reforça que ainda há muito a ser feito. “A indústria papeleira, assim como outros segmentos produtivos, tem adotado mudanças em seus processos com o objetivo de se manterem competitivas no mercado. No entanto, como a fabricação do papel é um processo complexo e envolve indiretamente diversos outros subsistemas associados, novas melhorias estão sempre em desenvolvimento e neste sentido, a ACV pode contribuir significativamente.”

No Brasil, apesar de toda a produção de papel e celulose ser originária de áreas de reflorestamento – uma vez que o papel resultante de florestas plantadas permite produzir 30 vezes mais produto do que aquele que se obtém da exploração de florestas nativas –, sendo, portanto, fonte de recursos renováveis, não tem sido simples garantir uma resposta eficaz do mercado ao aumento do setor. “Observa-se que os investimentos realizados na área de reflorestamento nos últimos anos não têm acompanhado o crescimento industrial, de forma que em médio prazo, a indústria pode ir perdendo competitividade.” Sobre os benefícios proporcionados pela adoção da ACV no processo produtivo, Galdiano afirma que os resultados da pesquisa podem contribuir para que as empresas aprendam a conviver com uma visão mais global do ciclo de vida do produto, não se limitando a desenvolver melhorias ambientais, mas também características que aumentem sua produtividade. Esse é o caso de alterações logísticas, análise da eficiência operacional e acompanhamento da escala de produtividade, por exemplo.

Em relação ao estabelecimento de um selo verde por parte do setor, o pesquisador revela que o GP2 está em processo de formação de um banco de dados que permita implementar essa ferramenta, de grande importância, ainda, para os consumidores. “Por meio da certificação, os consumidores têm a certeza de que as melhores práticas, geradoras de menor impacto ambiental, foram adotadas”. Assim, conclui: “É possível avaliar que não houve super exploração dos recursos naturais, que o uso do solo e a gestão dos recursos florestais estão sendo realizadas adequadamente, que nenhuma árvore foi derrubada ilegalmente para a produção do papel, que os direitos dos trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva foram respeitados ou que as comunidades instaladas no entorno das florestas não foram prejudicadas pela atividade”.

Publicado em: 07/11/2012

O projeto de empresa que virou dissertação de mestrado

São Paulo (AUN – USP) – Luiz Otávio Lamardo é estudante de mestrado e, desde setembro de 2011, tem desenvolvido trabalhos acerca da classificação visual de produtos agrícolas. Estimulado a se aprofundar no tema depois de tomar contato com as necessidades do mercado, ele revela que aprendeu no Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP) a importância de se apostar em projetos que levam em consideração nichos pouco explorados e a capacidade de inovar, principalmente, quando se é um jovem empreendedor.

Instigado a montar um negócio, antes mesmo de se formar em engenharia da computação, o estudante procurou buscar embasamento no curso da disciplina Criação e Administração de Empresas de Computação, que lhe deu suporte para levar seu sonho adiante. Hoje, ao lado de dois colegas da faculdade, ele busca projetar máquinas com visão computacional e inteligência artificial capazes de diferenciar variedades de mudas de violeta.

A ideia inicial do projeto é otimizar a produção de violetas a partir da correta classificação de determinados tipos da planta cultivada. Assim, é possível evitar que as mudas tenham um acompanhamento inadequado e variem muito em termos de qualidade quando o cultivo é feito em larga escala. Segundo Luiz, essa necessidade está ligada ao fato de que “o ser humano não é feito para realizar trabalhos repetitivos”, o que aumenta a taxa de erro na avaliação do desempenho final do processo que envolve, por exemplo, a plantação no interior de estufas.

Atualmente, o que ocorre na maioria dos casos é que o produtor precisa treinar seus funcionários para reconhecer a diferença entre as mudas, tarefa que demanda tempo e, por mais que seja realizada com cautela, na prática não funciona com precisão. Dessa forma, as mudas acabam se misturando e, aos poucos, fica difícil de organizar a produção, decidindo sobre quais vasos precisam passar para outra estufa – e seguir com o processo de crescimento – e quais deles podem ser encaminhados para a venda, por exemplo.

Nesse sentido, o projeto propõe a utilização de máquinas capazes de reconhecer o padrão das mudas por meio de fotos, cujo intuito é otimizar a produção e permitir que o agricultor garanta a qualidade de seu produto. Assim, “se ele tiver mudas homogêneas, o preço dos lotes pode ser o mesmo. Além disso, como o metro quadrado desse tipo de empreendimento é muito caro, a vantagem está ainda no aproveitamento do espaço”. Sem ter que se preocupar com a falta de organização no interior da estufa, o produtor pode agrupar uma grande quantidade de mudas que se comportam de maneira semelhante e manipulá-las em conjunto. Isso evita também que uma planta atrapalhe o crescimento da outra, dado o espaço necessário para as folhas se desenvolverem que, no caso da separação manual, pode ficar prejudicado quando as violetas estão misturadas.

Luiz explica que o trabalho foi feito em etapas. Primeiro, com ajuda de um especialista experiente, ele e seus colegas, puderam medir parâmetros (como a área da folha e o comprimento do ramo) das violetas, considerados importantes por esse profissional, acostumado a distinguir as plantas. Depois, tendo selecionado 26 parâmetros ao todo, foi necessário ranquear a importância de cada um deles para estabelecer a diferença entre as mudas. E só então, um classificador – cuja função é separar as mudas – foi utilizado levando em consideração diferentes combinações de parâmetros.

Ao final dessa sequência, o classificador passa por um treinamento, que acontece da seguinte forma: a título de aprendizado são colocadas várias mudas do tipo A, por exemplo, na esteira. Sendo que cada uma delas passa a ser fotografada pelas câmeras do aparelho, que reconhece os parâmetros escolhidos e vai armazenando os dados relativos àquele modelo de muda. De acordo com esse processo, quando a associação estiver completa, a máquina será capaz de diferenciar os tipos de muda, lançando em diferentes recipientes, por meio de um sistema de assopramento (pelo qual o impulso do ar garante que as plantas não sejam danificadas), as variedades de violeta.

De acordo com Luiz, “é muito bom que a pesquisa acadêmica seja revertida em produtos e serviços para a sociedade”, caminho esse que o mestrado dele seguiu e que promete ser de grande valia para ampliar as tecnologias disponíveis no mercado. A empresa fundada por ele e seus societários, em 2012, fica sediada no Cietec (Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia) e recebe o nome dos produtos que oferece: MVisia (máquinas com visão computacional e inteligência artificial).

Publicado em: 31/10/2012

Projeto permite a ampliação do acesso à informação por parte de deficientes auditivos

São Paulo (AUN – USP) – O projeto Poli-Libras nasceu da iniciativa de três estudantes universitários que decidiram elaborar para o seu trabalho de conclusão de curso (TCC) em engenharia da computação pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) um sistema aberto, disponível na internet, cuja proposta é facilitar o acesso de deficientes auditivos a textos escritos em português.

Segundo Marcelo Koga – que em parceria com Guilherme Januário e Leonardo Leite contribuiu para a idealização do projeto – “é difícil para os surdos aprenderem português, principalmente, porque essa é uma língua muito ligada ao som”. Sem que seja possível associar a imagem das letras à forma dos objetos que elas representam em conjunto o processo de aprendizagem se torna complicado. Assim, a possibilidade de traduzir frases escritas em português para a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é um grande passo na inclusão social dessas pessoas.

Marcelo explica que a ideia lhe chamou a atenção porque “une a computação à linguagem natural e à acessibilidade”, assunto que algum tempo antes também tinha despertado seu interesse. Ele conta que, no segundo ano da faculdade, desenvolveu um leitor de cores para cegos que, entre outras aplicações, permitia que eles pudessem identificar notas de dinheiro. Hoje, com as novas cédulas, que apresentam diferentes tamanhos e tiveram suas marcas táteis aprimoradas, esse problema foi minimizado.

Sobre o projeto Poli-Libras, o estudante revela que a sua vantagem é o fato do sistema levar em consideração a morfologia e a sintaxe da Libras, elaborando construções mais próximas da realidade dos deficientes auditivos. Dessa forma, ao invés de fornecer apenas uma tradução de palavra por palavra, que se constituiria no português sinalizado, o avatar criado para representar interativamente a Libras garante que se leve em consideração, por exemplo, a ordem em que os termos sintáticos (tais como sujeito, verbo e objeto) são dispostos na frase, ordem essa que é diferente no caso do português.

Em relação ao vocabulário utilizado pelo tradutor, Marcelo esclarece que como a Libras não possui uma forma padronizada de codificar sinais em texto escrito, foi necessário se basear em um modelo estrangeiro chamado Sign Writing, para criar um dicionário que pudesse conter as duas formas de linguagem. Segundo ele, a proposta do dicionário WikiLibras é a de que qualquer pessoa possa contribuir para melhorar o sistema. Sendo assim, mesmo que o internauta desconheça a Linguagem Brasileira de Sinais ele pode colaborar com análises morfológicas, atribuindo à palavra “casa”, por exemplo, o valor de substantivo. Segundo Marcelo, essa propriedade é importante para definir com maior precisão que função sintática a palavra pode ocupar em uma oração qualquer.

Apresentado em 2010, o projeto recebeu recentemente um prêmio oferecido pela Caixa Econômica Federal, cujo objetivo é financiar a implantação de melhorias no sistema. Para Marcelo, como o intuito do trabalho era “fazer um pouquinho de tudo e dividir o projeto em módulos para aumentar o reuso por parte dos usuários, ainda há muito que se fazer”. Levando-se em consideração o feedbackrecebido dos próprios deficientes, ele acredita que, primeiramente, seja necessário aprimorar a expressão facial do avatar que reproduz os sinais da Libras e aumentar sua capacidade de realizar movimentos, adicionando braços à composição. Além disso, seria importante ampliar a eficiência do tradutor que, por enquanto, só traduz uma oração (frase dotada de um único verbo) de cada vez.

Contente com a conquista, o estudante de mestrado acredita que o Poli-Libras pode ser uma ferramenta útil para aumentar a acessibilidade na internet, ajudar no aprendizado de quem se interessa pelo assunto e, futuramente, contribuir para a geração de legendas nessa linguagem, seja em vídeos no Youtube, filmes ou programas de televisão.

Publicado em: 30/10/2012

Laboratório da Poli desenvolve novas soluções para lidar com a pavimentação

São Paulo (AUN – USP) – Resultado de trabalhos conjuntos, que envolvem alunos da graduação, mestrandos e doutorandos, os projetos desenvolvidos no Laboratório de Tecnologia de Pavimentação – coordenado pela professora Liedi Bernucci – do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica Universidade de São Paulo (Poli/USP) visam oferecer novas soluções para os desafios que cercam a utilização do asfalto convencional. As pesquisas abrangem desde o estudo da poluição gerada na produção da mistura asfáltica até a preocupação com enchentes ocasionadas pela falta de permeabilidade dessas estruturas e a possibilidade de se reaproveitar entulho para construir as bases do pavimento.

No caso da iniciativa de diminuir a emissão de poluentes na produção da mistura asfáltica, a pesquisadora Rosângela dos Santos Motta – cuja tese de doutorado trata do tema – explica que uma das soluções pode ser a utilização de misturas mornas. Fruto da junção de pedras com asfalto, a mistura que dá origem ao revestimento dos pavimentos necessita ser submetida a temperaturas que giram em torno de 150 °C a 180 ° C a fim de ter trabalhabilidade (ou seja, fluidez necessária para que, ainda no estado fresco, possa ser trabalhada). Sendo assim, além de uma considerável queima de combustíveis para aquecimento, o processo gera uma proporcional emissão de poluentes. Partindo dessa situação, o intuito da pesquisa é propor o uso de aditivos químicos ou de alterações no processo de produção capazes de promover a trabalhabilidade do asfalto a temperaturas mais baixas.

Nas palavras da pesquisadora, “embora essa técnica gere benefícios para a saúde, como a redução da exposição ao fumo do asfalto, e condições para se conquistarem créditos de carbono e economia de combustíveis, as empresas ainda têm medo do novo, e isso é natural”. Para ela, a falta de normas que regulamentem a mistura é um dos principais problemas que afetam o setor. “Como você tem que comprar os aditivos ou alterar o processo de fabricação, muitas empresas preferem deixar tudo como está. Faltam normas, mas elas vêm com o tempo. Precisamos usar, fazer testes, para chegar na melhor forma de preparo”.

Sobre a aplicação dos conhecimentos, Rosângela comenta que a Poli acompanhou dois trechos experimentais construídos com misturas mornas: um na Rodovia Presidente Dutra e outro na Rodovia dos Bandeirantes. Como citado anteriormente, segundo ela, iniciativas como essa são muito importantes, principalmente no sentido de aprimorar os conhecimentos adquiridos e implementar normas, como as que foram anexadas às especificações existentes acerca da pavimentação nos Estados Unidos, país que utiliza largamente a técnica das misturas mornas.

A respeito do pavimento drenante, a pesquisadora destaca a dissertação de mestrado de Afonso Virgiliis como peça fundamental para o desenvolvimento de um revestimento asfáltico poroso, que em conjunto com camadas inferiores do pavimento (dotadas de vazios em função do tamanho e distanciamento das pedras selecionadas) permite que a água escoe de forma mais lenta. Assim, a chuva que chegaria em pouco tempo até os rios é armazenada no pavimento durante seis ou sete horas, o que diminui o risco de enchentes. Embora a proposta seja amortecer os picos de chuva em contato com o asfalto, Rosângela não desconsidera a necessidade de a técnica ser aprimorada, a fim suportar maiores cargas de veículos e também de propor soluções para o acúmulo de sujeira nos poros, o que dificulta a passagem da água da chuva com o passar do tempo.

Outro projeto que chama a atenção por seu caráter de economia de recursos foi aplicado inclusive na pavimentação da USP-Leste. Apresentado na pesquisa de Fabiana Leite, o pavimento ecológico combina a utilização de borracha de pneus descartados no revestimento asfáltico, com o aproveitamento de entulhos produzidos na construção civil para edificar as bases do pavimento. A ideia é reutilizar tijolos e concreto para compor a camada que fica mais próxima do solo e que, nesse projeto, chega a ter por volta de 25 a 30 centímetros. Segundo a pesquisadora Rosângela, “o objetivo é sempre proteger o solo para que ele suporte o tráfego de veículos”. E, mesmo que esse não seja o caso específico da USP-Leste, uma vez que a circulação de automóveis é reduzida por se tratar de um estacionamento, o fato de o local ter sido um “bota-fora” durante a construção da Avenida Ayrton Senna contribuiu para que o pavimento necessitasse de ajustes. “Como as deformidades do terreno eram muito grandes foi utilizado entulho inclusive para melhorar a estabilidade do solo local.” De acordo com a pesquisadora, assim como tudo o que envolve o estudo da tecnologia de pavimentos, “o importante é compatibilizar o uso dos materiais com a particularidade de cada projeto”.

Publicado em: 18/10/2012

Sensores aplicados à gestão ambiental dinamizam a relação do homem com a natureza

São Paulo (AUN – USP) -Professor do Departamento de Engenharia da Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Carlos Eduardo Cugnasca desenvolve junto a uma equipe de profissionais de outras áreas, como biólogos e agrônomos, projetos de pesquisa relacionados à agricultura de precisão e biodiversidade.

Voltada para um melhor aproveitamento do solo, assim como para a economia de recursos, a agricultura de precisão faz uso de dispositivos de posicionamento global (GPS) para definir qual a quantidade de pulverizadores e água necessários, por exemplo, para cada porção de terra em que é produzida determinada cultura. Segundo Cugnasca, “por meio do GPS conseguimos uma localização precisa no campo, garantindo que na hora da pulverização só se pulverize o local certo na quantidade certa; além de ser possível economizar água, um dos bens mais preciosos do planeta”. De acordo com ele, antigamente, a análise do solo ficava restrita ao estudo de pequenas amostras, cujos valores eram utilizados para representar toda uma área de cultivo, sendo inviável monitorar com precisão as particularidades de cada porção.

Atualmente, novos dispositivos começam a ser utilizados para o monitoramento agrícola: as redes de sensores sem fio. Elas são constituídas por pequenas placas computadorizadas, que têm a capacidade de medir, por exemplo, temperatura, umidade, radiação solar, potencial hídrico do solo e pressão atmosférica. Envolvidos por caixas capazes de resistir à chuva e à poeira, esses dispositivos podem ficar ativos por até cinco anos, sem que seja necessário trocar suas baterias, isso porque possuem células solares, que carregam as baterias durante o dia e mantêm seu excedente de energia para o funcionamento à noite.

Outra pesquisa realizada pelo Grupo de Tecnologia da Informação aplicada ao Agronegócio e Ambiente diz respeito ao estudo do comportamento das abelhas. Segundo o professor, “a agricultura não existiria como conhecemos hoje se não fossem os polinizadores, por isso, a importância de se saber qual a melhor espécie de abelhas para determinada cultura”. Nas palavras dele, “o aluguel de colmeias ainda é uma prática comum na agricultura, em especial no cultivo protegido”, o que revela o potencial desses insetos para polinizar diversas espécies de plantas na natureza.

No caso das abelhas, o sistema de monitoramento consiste na instalação de sensores sem fio, com baterias recarregáveis em campo ou em laboratórios, o que permite que se acompanhe o comportamento desses insetos face às alterações das condições do ambiente, como temperatura, umidade e luminosidade, dentro e fora das colmeias.

Em relação aos sensores espalhados no ambiente, a captação das informações acontece graças à comunicação entre as antenas de rádio de cada um dos pequenos aparelhos que, transferindo o sinal entre si, garantem a transmissão dos dados até uma central de computadores. Assim sendo, é possível monitorar as abelhas de qualquer parte do mundo, sendo necessário apenas que os computadores estejam conectados à internet.

Sobre a aplicação dos conhecimentos gerados com os estudos, o professor relata uma série de exemplos. Como a otimização da produção de uvas, cultura essa muito sensível às mudanças climáticas e que exige diferentes graus de qualidade, seja para a produção de vinhos ou sucos. Nessa passagem, ele aponta para a redução da necessidade do produtor, que habita áreas mais geladas do país, como o Rio Grande do Sul, ter de pressupor a chegada de uma noite fria que pode prejudicar a sua plantação. Dessa forma, ao invés de sair de casa durante a madrugada, munido de um termômetro e um higrômetro (aparelho capaz de medir a umidade ambiente), o agricultor pode contar com a ajuda de sensores comercialmente disponíveis que medem as grandezas de maior interesse à cultura, sabendo assim a hora certa de cobrir suas parreiras com plástico ou de queimar óleo para criar uma camada protetora que diminui o contato da plantação com o ar frio.

Outro caso prático, possível de se fazer uso de sistemas de monitoramento, trata da preservação de reservas ambientais. Uma vez que, por meio de sinais de comunicação por telefonia via satélite, há como se identificar princípios de incêndio, conhecer o hábito dos animais e evitar expedições de pesquisadores a esses santuários ecológicos, o que muitas vezes causa transtornos às espécies, desacostumadas com a presença humana.

Em relação à USP, o projeto também tem permitido que a vegetação nativa da Mata Atlântica seja catalogada e monitorada. Com pregos dotados de códigos de identificação – conhecidos com RFID (identificação por radiofrequência), similares aos encontrados em chachás de acesso e cartões como o Bilhete Único – instalados nas árvores, em breve será possível conhecer as espécies nativas da área, assim como a idade de cada planta. A ideia dos pesquisadores é ampliar os incentivos à preservação e poder programar podas futuramente, em função do tempo de vida das árvores. Assim como, possibilitar programas de visitas monitoradas, podendo-se obter de cada árvore, por meio de smartphones, as suas principais informações.

Publicado em: 11/10/2012